Grant Gustin em The Flash/CW

Créditos da imagem: CW/Divulgação

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Muito drama, pouca ação, trama batida e mais: por que The Flash precisa acabar

Segunda série do Arrowverse perdeu o brilho de suas primeiras temporadas

Nicolaos Garófalo
24.02.2020
18h43
Atualizada em
24.02.2020
22h23
Atualizada em 24.02.2020 às 22h23

Quando estreou em 2014, era difícil imaginar que The Flash se tornaria uma das séries mais difíceis de se acompanhar do Arrowverse – que, até aquele momento, nem ao menos tinha um nome. Derivada de Arrow, a produção baseada em um dos principais heróis da história da DC – e da indústria dos quadrinhos em geral – tinha um tom completamente diferente de sua predecessora, com uma fotografia mais colorida, humor mais leve e um elenco carismático liderado por Grant Gustin, que vivia, na época, um deslumbrado Barry Allen.

O problema é que, com o passar das temporadas, The Flash foi perdendo grande parte do seu charme. Em seus três primeiros anos, o Corredor Escarlate enfrentou três diferentes velocistas, fazendo com que vários fãs e críticos perdessem a boa vontade com a série. Ao mesmo tempo, personagens queridos como Barry e Cisco (Carlos Valdes) tiveram suas personalidades únicas diluídas e com o tempo se tornaram apenas figuras genéricas dentro da CW, emissora responsável pela transmissão original do Arrowverse.

The Flash simplesmente deixou de ser divertida. Existe uma pressão aparente para que todo e qualquer episódio da série tenha uma tensão desnecessária entre alguns personagens principais, que sempre se resolve com um conselho rápido de Joe (Jesse L. Martin). Mais um fator presente nessa cansativa fórmula é a obrigatória reviravolta extremamente óbvia que se revela nos segundos finais de cada capítulo, na esperança de trazer os espectadores de volta na próxima semana.

Outro incômodo relativamente frequente na série é a ausência constante do herói titular. Embora Barry e seus inúmeros dramas existenciais estejam sempre presentes, suas aparições como o Flash são cada vez mais raras, fazendo com que o nome da produção se torne enganoso. Foram-se os tempos em que Barry usava sua velocidade para zombar de assaltantes de banco ou desmontar carros de fuga. Em seu lugar, o perito agora assiste ao monitor do Laboratório STAR com os braços cruzados até o vilão da semana dar as caras.

Nas últimas semanas, por exemplo, Barry foi jogado completamente para escanteio da própria série, envolto no luto pela morte de Oliver (Stephen Amell) em Crise nas Infinitas Terras ou lidando com seus problemas matrimoniais com Iris (Candice Patton). Se antes o carisma de Gustin era capaz de carregar o mais fraco dos episódios nas costas, o ator agora precisa ser arrastado por Patton – que finalmente tem algum espaço para brilhar -, Hartley Sawyer (Homem Elástico) e Danielle Panabaker (Nevasca).

Além disso, o Arrowverse se tornou um dos universos compartilhados mais plurais na história da televisão aberta norte-americana. Supergirl discute delicadamente assuntos como imigração e empoderamento feminino, Batwoman focou na luta de sua protagonista contra uma sociedade homofóbica, Raio Negro não se esconde da discussão sobre violência policial contra cidadãos negros e Legends of Tomorrow contou, ao longo de cinco temporadas, com diversos membros LGBTQ+ em sua equipe. Enquanto isso, The Flash mantém-se óbvia e irrelevante no cenário sócio-político atual. Embora tenha dado espaço para boas tramas envolvendo suas personagens femininas, esses exemplos são incomuns na série do velocista e parecem acontecer apenas para cumprir uma certa cota.

Mesmo quando a série apresenta boas ideias, elas são rapidamente descartadas. Todo o arco de redenção de Ralph e sua eventual ascensão como Homem Elástico ficam de lado quando Sawyer passa semanas seguidas sem aparecer em The Flash. Mesmo Nevasca, cuja inaptidão social é o único escape do clima de novelão que a CW parece impor em suas produções, tem tido suas crises de Cisco, alternando momentos magníficos com monólogos extremamente cansativos.

Como qualquer fã das HQs pode atestar, os quadrinhos do Flash são coloridos, divertidos e cheios de humor e ação. A capacidade de Barry Allen manter o sorriso no rosto e a esperança apesar de todas as derrotas que sofreu é uma de suas características mais marcantes e The Flash simplesmente não consegue mais traduzir esse sentimento para a televisão.

Mesmo que ainda exista a chance da produção se recuperar e encerrar seu ciclo na TV com chave de ouro, como fez Arrow, The Flash parece se afundar cada vez mais em seus dramas desnecessários e no clima depressivo interminável de séries dramáticas adolescentes. Já sem clima com fãs, crítica e, se as atuações são algum indicativo, atores, o desgaste da série parece irreversível e a melhor saída seria esvaziar o estúdio antes de um cancelamento mais dolorido.