A Viagem de Chihiro mudou a maneira como olhamos para filmes animados japoneses

Créditos da imagem: Estúdio Ghibli/Divulgação

Mangás e Animes

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A Viagem de Chihiro mudou a maneira como olhamos para filmes animados japoneses

Filme completa 20 anos nesta terça-feira

Pedro Henrique Ribeiro
20.07.2021
18h57

A Viagem de Chihiro (2001), de Hayao Miyazaki, completa 20 anos nesta terça-feira (20) e é amplamente considerado uma das maiores animações de longa-metragem da história. Desde seu lançamento, em 2001, a produção conquistou vários prêmios, entre eles o Urso de Ouro, em 2002, e o Oscar de Melhor Animação de 2003. Durante quase duas décadas, o filme dominou o primeiro lugar das bilheterias de filmes de animação japoneses, tendo sido recentemente ultrapassado por Demon Slayer: Mugen Train.

O sucesso do filme é resultado de uma série de preocupações que Miyazaki tem com suas obras. Além do cuidado estético, o longa ainda tem protagonismo feminino, uma das marcas registradas do criador. “Muitos dos meus filmes têm protagonistas femininas fortes, corajosas, auto-suficientes que não pensam duas vezes para lutar pelo que acreditam. Elas talvez precisem de um amigo ou de um ajudante, mas nunca precisarão de um salvador”, disse ele uma vez.

Mas a pequena Chihiro não fez “apenas” sucesso -- ela, na verdade, mudou a forma como os filmes animados japoneses são distribuídos no ocidente. Antes do seu longa, a indústria cinematográfica americana tinha muita dificuldade em aceitar o estilo de Miyazaki e outros artistas orientais, que usam o tempo a seu favor dentro das narrativas.

Antecessor de Chihiro, Princesa Mononoke (1997), por exemplo, quase chegou aos cinemas americanos cheio de cortes. Isso porque o ex-produtor Harvey Weinstein achou que a duração do filme era exagerada. Na época, ele representava a Miramax, empresa responsável pela distribuição do filme nos Estados Unidos. Weinstein chegou a ameaçar um boicote às obras do estúdio Ghibli, além de um processo judicial contra eles, caso a exigência não fosse cumprida.

“Se você não cortar a p**** do filme, você nunca vai trabalhar nessa p****de indústria de novo! Você tá me entendendo, c******? Nunca”, disse o americano a um funcionário do Ghibli.

Acontece que Miyazaki não atendeu ao pedido do produtor americano e Princesa Mononoke chegou aos cinemas do país na íntegra, mas sem o sucesso de bilheterias do seu sucessor. No ano passado, Weinstein foi condenado a 23 anos de prisão por crimes sexuais.

Quatro anos após a dor de cabeça, Miyazaki lançou sua joia da coroa - Chihiro. O estúdio então decidiu procurar um nome diferente para levar seus trabalhos para a América. Foi aí que o mestre da ilustração japonesa conheceu o animador John Lasseter, criador de Toy Story.

“Se você assistiu a A Viagem de Chihiro, pode perceber que o filme tem uma sensibilidade muito japonesa”, declarou Lasseter em uma entrevista ao Omelete, em 2009. Ele explicou que pequenas mudanças são necessárias, mas a essência da obra precisa permanecer a mesma, bem como sua duração. “Eu absolutamente não quero mudar nada na visão do Miyazaki, porque os filmes dele são tão profundos e tão únicos e, sabe, às vezes nós não entendemos certas coisas, mas foi isso que ele pretendia”.

A Viagem de Chihiro foi a primeira animação estrangeira a vencer a categoria de Melhor Animação no Oscar, um marco histórico que chamou a atenção do ocidente. Inicialmente, a Disney, responsável pela distribuição do filme nos Estados Unidos, o colocou em cem salas de cinema, mas após a premiação esse número subiu para 700.

Também graças à vitória no Oscar, Chihiro foi o primeiro filme do estúdio Ghibli a ser lançado nos cinemas do Brasil, criando assim o primeiro contato entre o público brasileiro que não consumia animes  e os longas animados japoneses.

A partir da experiência com Chihiro, Lasseter passou a ser um defensor da obra de Miyazaki nos Estados Unidos, e trabalhou com o estúdio japonês em animações posteriores, como Ponyo (2008).

Esse respeito com a liberdade criativa dos animadores japoneses foi a grande herança que A Viagem de Chihiro deixou para diversas outras animações, como as obras de Makoto Shinkai, criador de Your Name (2016) e Jardim das Palavras (2013), ou as de Mamoru Hosoda (Guerras de Verão e A Garota que Conquistou o Tempo). O filme ainda abriu caminhos para longas derivados de animes e mangás.

A Viagem de Chihiro, bem como outras grandes obras do estúdio Ghibli, está disponível no catálogo da Netflix. Para saber mais sobre Hayao Miyazaki e seu trabalho, confira nosso Retrato Omelete especial de 80 anos do artista:

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