Star Trek: Academia da Frota Estelar mira nova geração de fãs e acerta em cheio
Produção tem foco claro na audiência mais jovem, entretanto, não esquece o que fez o universo de Gene Roddenberry ser o que é
Como James T. Kirk chegou ao comando da USS Enterprise? Onde Uhura se tornou uma das maiores especialistas em comunicações da Frota? E em que momento Jean-Luc Picard construiu o conhecimento que o tornaria um dos capitães mais respeitados da história? Star Trek já respondeu parte dessas perguntas ao longo dos anos — algumas com mais atenção, como no filme dirigido por J.J. Abrams em 2009 —, mas a base de formação da Frota Estelar sempre foi um terreno pouco explorado. Star Trek: Academia da Frota Estelar surge exatamente para preencher essa lacuna.
Lançada no ano em que o universo criado por Gene Roddenberry completa 60 anos, a nova série acompanha jovens cadetes em sua jornada de aprendizado, conflitos e descobertas dentro da principal instituição da Frota Estelar. Para contar essa história, os criadores Gaia Violo, Noga Landau e Alex Kurtzman — responsável por comandar Star Trek na TV desde Discovery — optaram por ambientar a trama cerca de mil anos após a série original. A decisão é estratégica: evita conflitos com o cânone e ainda abre espaço para homenagens que atravessam toda a franquia.
Essas referências estão espalhadas com carinho, indo de nomes como James T. Kirk e Benjamin Sisko — com uma lembrança especialmente emocionante a Avery Brooks — até detalhes que só fãs atentos reconhecem, como Mr. Boothby, o jardineiro da Academia apresentado em A Nova Geração. É uma celebração do passado que não engessa a narrativa.
Ainda assim, o grande objetivo de Academia da Frota Estelar é claro: renovar o público de Star Trek. A série abraça sem medo a estrutura de histórias sobre jovens adultos em ambiente escolar ou universitário. Há conflitos entre grupos, romances atravessados por rivalidades, diferenças de personalidade, dramas familiares e a clássica divisão entre o descolado, o nerd e o deslocado. A diferença está na forma como esses elementos se conectam aos valores centrais da franquia.
Aqui, uma aula de debate se transforma em uma discussão profunda sobre o papel da Frota Estelar e seus limites éticos ao interferir em outras culturas. Uma briga entre duas “escolas” vira uma lição sobre liderança, responsabilidade e trabalho em equipe. A série entende que crescer também é aprender a lidar com dilemas morais — algo que sempre definiu Star Trek.
No centro disso tudo está Holly Hunter, excelente como a capitã e chanceler da Academia. Fugindo do arquétipo rígido da “diretora da escola”, Hunter entrega uma personagem leve, irônica e humana, mesmo carregando traumas e desejos de reparação. Sua dinâmica com o protagonista Caleb Mir (Sandro Rosta) funciona exatamente como esperado: uma relação de aprendizado mútuo, erros compartilhados e decisões que podem moldar o futuro de ambos.
O contraponto vem com Paul Giamatti, que rouba a cena como Nus-Braka, um vilão meio Klingon e meio Tellarite. Debochado e perigoso na mesma medida, ele protagoniza um dos melhores momentos da temporada ao confrontar a capitã-chanceler Nahla Ake, misturando passado e presente de forma tensa e reveladora.
É provável que Star Trek: Academia da Frota Estelar encontre resistência de parte dos fãs mais antigos, que podem sentir que a série “não foi feita para eles”. Mas, como o próprio Giamatti disse em entrevista ao Omelete, depois de seis décadas, “quem sabe o que os fãs antigos vão pensar?”. A franquia já viveu momentos de glória, outros nem tanto, um longo hiato entre Nêmesis e o filme de 2009, e um retorno avassalador à TV com seis séries em menos de dez anos. Olhar apenas para trás não é uma opção.
A verdade é simples: sem novos fãs, Star Trek corre o risco de sobreviver apenas como memória. E Academia da Frota Estelar entende isso sem trair sua essência.
Tal qual um bom processo educacional, a série nunca esquece os fundamentos de Jornada nas Estrelas. Em um dos momentos mais marcantes da temporada, o tema clássico dos Klingons ecoa durante uma lição que impacta não só o jovem Jay-Den (Karim Diane), mas também a chanceler, o almirante e toda a tripulação da USS Athena, a nave-escola da trama. É em momentos assim que a série deixa claro seu convite: descobrir o novo sem ignorar o que veio antes.
“Ex astris, scientia.” Das estrelas vem o conhecimento. 60 anos depois, Star Trek: Academia da Frota Estelar prova que ainda existem novos caminhos, novas civilizações e boas razões para a franquia continuar indo, com confiança, onde jamais esteve.