Ashur (Nick E. Tarabay) era um gladiador ferido quando o conhecíamos em Spartacus, série de 2010 que reeditou, para a geração 300, a história do escravo rebelde que quase derrubou o Império Romano. Menos proficiente na porrada do que seus colegas de ludus, ele compensava a “fraqueza” com uma mente afiada, uma falta de escrúpulos bem-vinda no universo criado pela série, e uma ambição evidente de não só se libertar dos grilhões da escravidão, como também escalar o estrato social de seus “mestres” romanos. Mais de uma década e meia após a sua estreia em nossas telas, o personagem finalmente ganhou a oportunidade de fazer exatamente isso em Spartacus: House of Ashur – mas a vida no topo se mostra bem mais difícil do que parecia.
Em House of Ashur, o criador e showrunner Steven S. DeKnight (Buffy, Smallville, Demolidor) mostra mais uma vez o seu apetite para destrinchar os volantes do poder, os momentos e impulsos que fazem eles girarem. A série, que se passa numa realidade alternativa onde Ashur sobreviveu aos eventos da trama original e foi presenteado com o comando do ludus onde anteriormente servia como escravo, está sempre buscando entender quais paixões guiam os homens e mulheres em seu centro a trair uns aos outros, se revoltar ou se conformar aos sistemas que lhes são apresentados. Em Ashur, enfim, o poder é sempre um negócio pessoal, e por isso mesmo muito mais atraente.
A mudança de posição social obriga o time de roteiristas liderado por DeKnight a pintar o protagonista com tintas diferentes daquelas usadas na série original. Se lá “o Sírio” (como é frequentemente chamado por seus detratores) tinha um temperamento inteiramente réptil, de sangue frio e pele escorregadia, aqui ele vira um animal mais robusto, mais lento, menos sorrateiro, mas também mais poderoso. Uma das melhores jogadas de DeKnight é reimaginar Ashur não como um herói – até porque é difícil reformar como tal um personagem que, na série original, foi decapitado pela mulher que estuprou –, mas como uma força corruptora moldada pelo seu entorno.
Assim, o carisma de Nick E. Tarabay se torna arma ainda mais valiosa para a série. O seu Ashur aqui é mais teatral do que nunca, carregado num deboche que ele só deixava escapar pelas frestas de suas inflexões em Spartacus. No centro de House of Ashur, o magnetismo do ator permite que ao seu redor se organize um universo em que cada personagem representa determinados privilégios, deveres, ressentimentos, vendetas… a série sabe, enfim, que pode confiar no seu protagonista para ancorar essa história, e desenha o seu próprio arco para ricochetear no arco daqueles ao seu redor.
Por exemplo: o ex-escravo Ashur começa a entender, nessa primeira temporada, porque os seus “melhores” nunca vão o aceitar como um igual, ainda que ele tenha ganho a liberdade e as posses que ele sempre achou serem significativos desse status; e Korris (Graham McTavish, brilhante como de costume), outro ex-escravo que Ashur contratou para treinar seus gladiadores, segue caminho parecido ao tentar decifrar como a liberdade conquistada por ele muda ou não muda a sua capacidade de perseguir os sonhos e prazeres que se colocam ao seu alcance. Os personagens de House of Ashur estão, todos, estendendo os braços na direção daquilo que deveria ser atingível; só para serem, todos, surpreendidos pela rédea curta que lhes meteram.
E há algo de catártico em ver as tragédias para as quais esses personagens se encaminham virem à cabo, é claro. Em House of Ashur, como na vida real, todo mundo tem um inimigo, e na maior parte do tempo o inimigo é justamente quem nos dá as ordens que não temos opção de não seguir. Como já fazia a Spartacus original, a série se embrenha sem medo na mata densa do como essas relações de poder se constróem e se confirmam – no sexo, na violência, na retórica, dentro e fora da arena, nas celas dos escravos e nas banheiras luxuosas da nobreza romana. Ali, tudo se manobra, tudo se recoloca, tudo se negocia… mas dificilmente alguém sai ganhando.