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Como o Caso Evandro deve retornar à Justiça após exibição de série no Globoplay

Produção documental revisitou caso marcado por problemas da polícia e do judiciário

Beatriz Amendola
19.06.2021
07h00
Atualizada em
21.06.2021
09h47

O Caso Evandro, a série documental concluída pelo Globoplay no início de junho, teve o mérito de construir uma narrativa envolvente e cheia de reviravoltas. Mas não só: a produção inpirada no podcast homônimo de Ivan Mizanzuki, ainda jogou luz sobre abusos graves cometidos pela polícia e pelo sistema judiciário brasileiros --e, depois dela, o caso deve ganhar novos capítulos na Justiça.

Para recapitular: a série trata da morte do menino Evandro Ramos Caetano, ocorrida em 1992 em Guaratuba, no litoral do Paraná. Celina e Beatriz Abagge --respectivamente mulher e filha do então prefeito Aldo Abagge-- foram acusadas de serem as mandantes do crime, que seria supostamente parte de um ritual satânico. Não à toa, o caso ficou conhecido na imprensa como “Bruxas de Guaratuba”, em referência a ambas.

Na época, elas e outros três acusados --Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares e Vicente de Paula-- confessaram o crime em gravações. No entanto, seguindo o que o podcast já havia feito em março de 2020, a série trouxe à tona a existência de fitas que comprovam que as confissões não só foram editadas, como ainda foram obtidas sob tortura cometida pela polícia militar.

“É um prato cheio para a defesa”, chega a dizer o promotor público Paulo Sérgio Markowicz de Lima, no sétimo episódio da série, após ouvir as fitas. Elas não foram incluídas entre as provas durante os julgamentos do caso, e o Ministério Público alegou, à produção, que não tinha conhecimento da existência delas.

Beatriz Abagge chegou a ser condenada a 21 anos de prisão em 2011, antes de obter o perdão do estado do Paraná em 2016. Para Celina, que já tinha mais de 70 anos, o crime havia prescrito. Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares e Vicente de Paula também foram condenados. Eles cumpriram pena, e o último morreu ainda na prisão, vítima de câncer.

Agora, a defesa de Beatriz e Celina, liderada pelo advogado Antonio Augusto Figueiredo Basto, pretende, nos próximos dias, entrar com um recurso no Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), pedindo a anulação do julgamento e indenização do Estado. Segundo Basto, que falou à rádio CBN, se a existência dessas fitas fosse conhecida antes, o processo contra os acusados não teria ido em frente: “As torturas são, sob a minha ótica, absolutamente demonstradas”.

A defesa ainda vai protocolar um pedido na Corte Internacional de Direitos Humanos, na Procuradoria-Geral da República e na Ordem dos Advogados do Brasil.

Série trouxe mudanças na vida de acusados

Na esfera pessoal, os acusados também vem sentindo diferenças após a exibição de Caso Evandro no Globoplay.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Beatriz Abbage falou que o tratamento da imprensa conferido a ela mudou. “Antes era assassina, agora é supostamente, esse tipo de coisa mudou, mas ainda existe uma coisa velada sobre nós”, afirmou. Ela e a mãe acabam de lançar o livro Malleus: Relatos de Injustiça, Tortura e Erro judiciário, em que contam sua versão da história.

Já o pai de santo Osvaldo Marcineiro, que optou por não dar entrevista à equipe da série, disse finalmente se sentir seguro para falar. “Sofri muito que essa mentira manchou esse sobrenome tão glorioso da nossa família. Essa trama diabólica não irá nos afetar mais pois somos todos inocentes. #7inocentesdeguaratuba”, escreveu em uma publicação no Facebook.

Os sete episódios de Caso Evandro estão disponíveis no Globoplay, bem como o episódio extra "O Caso Leandro", sobre o desaparecimento do menino Leandro Bossi, ocorrido poucos meses antes da morte de Evandro.