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Roger Waters | Show em São Paulo 2012

Uma noite na ópera: em espetáculo impecável, ex-baixista do Pink Floyd dá novo significado à sua obra-prima

02.04.2012, às 13H53.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H44

"Tear down the wall! Tear down the wall! Tear down the wall! Tear down the wall! Tear down the wall!"

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Às 21h55min da noite de 1º de abril, boa parte do muro cenográfico de mais de 130 metros de largura desaba no estádio do Morumbi, obedecendo ao coro formado pela banda, pelo playback e pelo público – os aplausos e gritos que dão sequência ao acontecimento são ensurdecedores.

Minutos antes, Roger Waters desdobra-se em juiz, promotor, professor, mulher, mãe e Pink – seu alter ego em The Wall (1979) – enquanto canta “The Trial”, a canção apoteótica que retoma todos os temas do show e que o encaminha a seu término: o muro construído por Pink é destruído e a acústica “Outside the Wall” faz as vezes de prólogo, apontando um novo começo.

Desde 2010, quando o ex-baixista do Pink Floyd iniciou a empreitada de recriar ao vivo o disco The Wall – obra-prima da banda que vendeu cerca de 30 milhões de cópias – mais de dois milhões de pessoas assistiram a esta mesma cena do espetáculo que chegou ontem à cidade de São Paulo. A obra apresentada na íntegra, noite após noite (fazendo jus ao título de ópera), contudo, ganhou significado bastante diverso do original, bem como uma merecida atualização tecnológica.

Segundo Waters, boa parte do impulso criativo de The Wall derivou-se de sua frustração com os grandes shows em estádios. O cantor afirmou que a conexão que o Pink Floyd pré-Dark Side of the Moon (1973) tinha com o público em seus concertos foi perdida assim que a banda tornou-se um grande grupo de rock. A alienação que atingiu seu ápice durante a turnê de Animals (1977), quando, durante um show em Montreal, o cantor cuspiu em um fã que tentava subir no palco. Viria daí a história do alienado astro do rock chamado Pink, abandonado pela mulher e assombrado por seu passado e pela ausência do pai, morto durante a Segunda Guerra Mundial (misturando a experiência real vivida pelo músico).

Mais de trinta anos depois, Waters dedica a turnê brasileira a Jean Charles de Menezes e admite no palco que “Achava que The Wall era sobre mim. Estava errado. Não é sobre mim, mas é sobre Jean Charles, é sobre todos nós”. São os temas universais – nacionalismo, racismo, terrorismo, capitalismo – o fio condutor deste novo The Wall.

Primeira Parte

Com uma enorme explosão de fogos de artifício, “In The Flesh?” inaugura o show. As laterais do muro são fixas e servem como grandes telões onde imagens, em altíssima definição, são projetadas: imagens do palco, bem como as animações que Gerard Scarfe fez para o filme The Wall (1982) e as belas novas animações feitas especialmente para esta turnê. No final da canção um aeromodelo vindo de uma das arquibancadas choca-se contra o palco.

O público, cativado por este início vai à loucura enquanto as músicas se sucedem e o muro cresce. As inúmeras caixas de som espalhadas pelo estádio (entre elas seis pontos de surround sound) fazem o helicóptero de “The Happiest Days of our Lives” parecer incrivelmente real. Depois da comoção gerada por “Another Brick In the Wall Part 2” (o estádio inteiro cantou We don’t need no education/ We don’t need no thought control) com seu enorme professor inflável de nove metros de altura, “Mother” foi a canção com a maior resposta do público nessa primeira parte do espetáculo. Nela, Waters faz um dueto com seu "eu" do passado, enquanto a imagem do concerto de 1980, em Earls Court, é projetada no muro e no grande telão do palco e o áudio original deste show  surge nas caixas de som do estádio.

Na belíssima “Goodbye Blue Sky”, aviões despejam logos de multinacionais ao invés de bombas. Já em “Don’t Leave Me Now”, o músico, sozinho, sentado numa cadeira, canta para uma enorme imagem de mulher projetada no telão. A iluminação torna a cena lindíssima.

“Goodbye Cruel World” fecha a primeira metade do show, com Waters cantando na única abertura restante. Finalizada a canção, o muro está completo e se dá o intervalo.

Intervalo

Imagens de várias vítimas de guerra são projetadas durante os vinte minutos de intervalo. Entre elas estão o poeta Federico García Lorca (morto em 1936, na Guerra Civil Espanhola), e o ativista brasileiro Chico Mendes (morto em 1988).

Segunda Parte

“Hey You” dá início à segunda metade do show com cantor e banda atrás da muralha, sem aberturas. “Confortably Numb” causa a maior reação do público nesta noite, com Roger Waters cantando na frente do muro e os guitarristas acima dele, elevados por pequenos guindastes. Inúmeras cenas de guerra dão o tom dessa sequência do show, finalizada pela dobradinha “In The Flesh”/ “Run Like Hell” (com um pequenino palco armado para a banda na frente do muro) onde Waters trajado de ditador, atira contra o público com uma arma cênica, e o grande porco inflável – com os dizeres “O novo código florestal vai matar o Brasil” – passeia em meio a plateia.

Retoma-se então a história de Pink, com o cantor novamente sozinho até a chegada do apogeu da noite: a destruição do muro e, coerentemente, do show. Um público embevecido canta “Olê, olê, olê, Roger, Roger”, coro que é replicado pela banda (agora só com instrumentos acústicos em suas mãos) antes de emendar “Outside the Wall”.

O espetáculo será apresentado novamente amanhã, dia 3 de abril, no estádio do Morumbi, em São Paulo.

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Fotos: M Rossi e Rafael Koch Rossi