Coldplay durante show no Morumbi, em São Paulo, em 10/03/2023 (Iris Alves/Live Nation)

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O Coldplay é coadjuvante no espetáculo do Coldplay - e com toda a razão

Grupo de Chris Martin entende que música ao vivo é experiência que deve privilegiar o fã

10.03.2023, às 23H29.
Atualizada em 11.03.2023, ÀS 13H30

Quando o Coldplay entrou no Morumbi, na noite dessa sexta-feira (10), eu poderia te perdoar se você nem notasse Chris Martin e cia. no palco. Ao som de "Higher Power", a banda foi recebida com chuva de papel picado, plateia acesa em show de luzes coordenadas (as pulseiras distribuidas para os fãs se acendem em padroes pré-programados para cada canção), fogos por trás do palco e uma dúzia (sério!) de telões de LED exibindo misturas de cores psicodélicas.

É um assalto aos sentidos que se prolongou por toda a apresentação da banda. Na segunda música, a excelente "Adventure of a Lifetime", bolas infláveis gigantes foram atiradas no público, passando de mão em mão e permanecendo no ar por horas enquanto a banda enfileirava hits. Dali para frente, o Coldplay não se privou de nenhum recurso: o clima de "In My Place" (outra ótima faixa do repertório dos britânicos) e "Yellow" foi ditado por uma bola de discoteca que refletia luzes amarelas e douradas pelo palco e pela plateia, enquanto Martin apareceu vestindo uma cabeça de alienígena iluminada em neon para "Something Just Like This".

Mas e a música, como fica? Bom, é chover no molhado, a essa altura do campeonato, dizer que o Coldplay é uma banda competente, que até demonstra arroubos de brilhantismo. O baixo de Guy Berryman em "Adventure of a Lifetime" é irresistivelmente propulsivo, enquanto o baterista Will Champion provou que manda bem nos backing vocals ao puxar os coros da obrigatória "Viva La Vida". A banda pesou o som só uma vez, na grooveada "Hymn for the Weekend", e provou que segura as pontas para além dos sintetizadores viajantes e baladas ao piano que compõem seus hits.

Ao microfone, Martin variou na empolgação e na elasticidade da voz. Talvez a experiência tenha ensinado o britânico a poupar o gogó, mas é fato que ele modulou a melodia de "Viva La Vida" para o grave enquanto deixou os agudos rolarem soltos em "Hymn" (Matt Bellamy, do Muse, ficaria orgulhoso) e "Yellow". O que não mudou durante o show foi a dancinha desengonçada, a essa altura já uma marca registrada do frontman - e que dá, porque não, o tom desavergonhadamente populista que faz o show do Coldplay funcionar.

Eu prometo que não te contei nem metade das surpresas e ousadias estilísticas que compõem o espetáculo do grupo. Rolaram labaredas melodramáticas no palco (eu estava pra lá da décima fila, mas senti o calor do fogo no rosto), gelo seco, iluminação expressionista (o verde e preto de "Clocks" é de tirar o fôlego), Chris Martin "cantando" em linguagem de sinais, repetições infindáveis da chuva de papel picado tradicional, e por aí vai. É tanta coisa que, quando Seu Jorge em pessoa apareceu para cantar "Amiga da Minha Mulher" com Martin, nem pareceu tão absurdo assim (mas foi bem legal).

O resultado é que o Coldplay vira coadjuvante no espetáculo do próprio Coldplay - e não há nada de errado com isso. Eles estão lá no palco, fazendo o trabalho deles, e bastante bem, mas entendem que a noite do show é toda sobre entreter os fãs e encontrar maneiras de elevar a experiência deles. Há quem o faça só com uma guitarra e um microfone, e há quem o faça com um milhão de apetrechos tecnológicos.

No fim, os meios importam menos que o resultado, e não deixe nenhum crítico esnobe te dizer o contrário. Minha pergunta para você, que estava lá, é uma só: e aí, funcionou?