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O homem duplo

Philip K. Dick em animação por rotoscopia

01.02.2007, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H21

A extensa obra do escritor Philip K. Dick (1928-1982) gerou adaptações memoráveis no cinema, como Blade runner - O caçador de andróides, e outras nem tanto, como O pagamento e Minority report. A scanner darkly, versão para as telas do romance O homem duplo, fica no meio do caminho. Não tem o potencial pop cult dos replicantes de Ridley Scott, mas encontra-se bem acima da média, passando longe da calculada ação hollywoodiana dos filmes de John Woo ou Spielberg.

O responsável pelo longa é o versátil Richard Linklater (Escola de rock, Antes do pôr-do-Sol), que optou em desenvolvê-lo com técnica semelhante - menos alucinada, porém - ao aclamado Waking Life: a rotoscopia digital, animação que "pinta" os atores e cenários reais, incluindo novas cores e texturas na película.

A estilosa técnica funciona tão bem quanto no seu antecessor. Se no primeiro o foco era no existencialismo, aqui está nas drogas.

A história baseia-se nas experiências pessoais de K. Dick e seus amigos (aos quais a obra é dedicada) com entorpecentes. Na trama, sete anos no futuro, um policial sob profundo disfarce, Fred (Keanu Reeves), recebe a missão de espionar seu próprio alter-ego, o traficante Bob. Porém, com o consumo crescente da letal Substância D, a personalidade de Fred (ou seria Bob?) começa a dividir-se. A paranóia cresce, afetando também seus amigos viciados: Jim Barris (Robert Downey Jr.), Ernie Luckman (Woody Harrelson) e Donna Hawthorne (Wynona Ryder).

Apesar de alguns dos elementos do filme não existirem - como a roupa-camaleão que torna o policial Fred impossível de ser identificado no departamento de polícia -, a história é bastante ancorada na realidade dos usuários de drogas, algo que a opção pela rotoscopia potencializa, dando à trama contornos oníricos. O amor do autor pelos personagens também é óbvio (os diálogos entre os protagonistas são de uma inocência cativante) e Linklater, excelente diretor de atores, o manteve intacto com a ajuda do ótimo elenco.

Ao final, fica a certeza de que, além de um ensaio sobre excessos, K. Dick buscou com A Scanner Darkly uma certa redenção, uma dolorosa tentativa de curar feridas e de rever amigos ausentes. Linklater entende isso e honra tal desejo com um filme digno do autor visionário.

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