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Crítica

Seymour Hersh: Em Busca da Verdade | Crítica do documentário da Netflix

Laura Poitras e Mark Obenhaus fazem retrato doloroso sobre o incessante impulso do sistema em cobrir os mais atrozes atos de quem vive no poder

3 min de leitura
01.01.2026, às 22H19.
Atualizada em 01.01.2026, ÀS 22H29

Em uma famosa entrevista, encenada em O Aprendiz, Donald Trump recita os ensinamentos que teve de seu mestre, Roy Cohn. O número 2, listado por ele como “Negue tudo, não admita nada”, começa com o discurso: “O que é verdade? O que eu digo é verdade, o que você diz é verdade. Sabe o que é verdade? O que eu digo é verdade”, ele finaliza, dizendo que o que importa é atacar sempre, não admitir nada e sempre se colocar como vencedor em absolutamente tudo, independente do resultado. Essas são as três regras para vencer, segundo Cohn.

A entrevista no filme é dada para o jornalista Tony Schwartz no fim da década de 1980, pelo menos 15 anos antes dos primeiros sinais da internet ganharem o mundo. Esse fato, citado inúmeras vezes por Trump e seus asseclas, mostra bem como o atual presidente dos EUA entende perfeitamente a psicologia por trás de uma relação de poder. Independente do que se enxerga como bom ou ruim, verdade ou mentira, o que importa é o que se compra como realidade. 

O novo doc da Netflix, Seymour Hersh: Em Busca da Verdade, pelas beiradas e sem citar muitos governos recentes, discute justamente essas questões sob a ótica do jornalista que dá título ao filme. Hersch, filho de imigrantes e vencedor do Pulitzer, ficou conhecido por dezenas de reportagens sobre Vietnã, Nixon, Bush, Iraque, Afeganistão, muito antes da dita “era da pós-verdade” na internet e das redes sociais - termo este também nunca citado, mas que exemplifica bem os tempos atuais, onde a narrativa digital se tornou muito maior do que qualquer fato.

A diretora Laura Poitras debruça Hersch e seus papéis em uma mesa, foca a câmera nas inteligíveis anotações do jornalista e percorre mais de cinco décadas da história americana e mundial para comprovar como a “verdade” nunca é o intuito de quem está no poder. O roteiro entrelaça os casos principais da Guerra do Vietnã, governo Nixon, as crises na CIA e depois parte para os confrontos no Oriente Médio. 

Para além do dever jornalístico, Hersch também tem seu retrato pessoal construído pelo viés do imigrante que viu a família sofrer com a Segunda Guerra e chegou aos EUA. A composição ajuda no entendimento das motivações do jornalista, mas o que faz, de fato, a narrativa do doc se diferenciar é a forma como Poitras pincela a revolta do próprio Hersch em aceitar fazer o filme e abrir seus documentos. 

A questão dos detalhes, dos nomes das fontes, é o de menos, o foco aqui é como ele protege, se importa e, aos 88 anos, segue lúcido de uma forma impressionante. Tal altivez vem, como o roteiro mostra, pela incessante busca pela verdade - por vezes escorregando, mas nunca longe do propósito ou da crença genuína de que o papel dele é não permitir que enterrem atos que demonstram quão desumano o poder pode tornar um povo.

Nota do Crítico

Excelente!

Seymour Hersh: Em Busca da Verdade

Cover Up

2025
118 min
País: EUA
Direção: Mark Obenhaus, Laura Poitras
Roteiro: Laura Poitras
Elenco: Seymour Hersh