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Seres Rastejantes | Crítica

Seres Rastejantes

15.06.2006, às 00H00.
Atualizada em 11.11.2016, ÀS 02H13

Seres Rastejantes
Slither
EUA, 2006
Terror/Comédia - 95 min

Direção e roteiro: James Gunn

Elenco: Nathan Fillion, Elizabeth Banks, Gregg Henry, Michael Rooker, Don Thompson, Tania Saulnier, Haig Sutherland, Jennifer Copping, Brenda James, Lorena Gale, Rob Zombie, Xantha Radley, Dustin Milligan

Se por um lado a população basicamente conservadora dos Estados Unidos glorifica as conquistas territoriais de seu império ciano-escarlatino, por outro lado sobra uma parcela que ainda se diverte às custas de suas fraquezas, de sua impotência e ingenuidade. A queda de um meteorito logo no início do filme, fincado no solo de uma pequena cidade norte-americana como uma cusparada sólida defenestrada de Marte, mostra o quanto misterioso e inóspito é esse terreno intergalático ainda não domesticado pelos soldados de Bush.

Seres Rastejantes (Slither, 2005), escrito e dirigido pelo estreante James Gunn (roteirista de Madrugada dos Mortos), usa as incertezas e probabilidades como material para sua comédia. Aparelhos de TV ligados, com suas locuções em off sobre teorias darwinistas de sobrevivência, permeiam os rostos cheios de espinhas e os lábios leporinos de uma população esquisita com sotaque caipira. Certamente não é este rancho provinciano o ideal de desenvolvimento tão propalado pela primeira potência mundial. O diretor não segue a escola de Todd Solondz mostrando de maneira espúria e vingativa o lado fraco e abjeto da população estadunidense. Mas não deixa de ser irônico e levemente maldoso com estes inocentes habitantes de Wheelsy.

Esta maioria silenciosa escondida dos outdoors é vítima ou do acaso transcendental ou de um inimigo que o público não conhece, um alvo baseado em critérios sabe-se lá por quais motivos. Grant Grant (Michael Rooker) é um cidadão comum, meio romântico apaixonado meio cabeça-dura truculento. Após uma recusa sexual de sua esposa, Starla (Elizabeth Banks), resolve ir a um boteco de madrugada e dá de cara com Brenda Gutierrez, a irmã caçula de uma antiga namorada. Brenda dá em cima de Grant, que fica com peso na consciência e resolve espairecer num matagal nas redondezas. É lá que ambos dão de cara com essa massa pulsante e não-identificada que, através de um tentáculo coberto de pústulas, fura a barriga de Grant e deposita no hospedeiro humano os parasitas alienígenas.

Gunn é um admirador confesso do gênero de terror trash dos anos 70. Acompanhou o trabalho de mestres como David Cronenberg e John Carpenter. Em Seres Rastejantes dá pra se notar claramente estas influências. O filme não se pretende inovar, muito pelo contrário. É nítido o tom de homenagem em material reciclado aos elementos cênicos da categoria. Tá mais para uma colcha de retalhos que aglutina o lado belicoso de uma guerra interplanetária galgada em ambientes escuros de Carpenter com a gosmentologia escatológica e uterina que rasteja pelas reentrâncias viscosas de Cronenberg. Mas a grande referência talvez seja o idealizador do zombie-movie George Romero. Na maior parte do texto o espectador se depara com um grupo de mortos-vivos que cresce em progressão geométrica. São os contaminados que seguem a cartilha do cientista do programa televisivo e tentam sobreviver derrotando os mais fracos. Andam desengonçados e sonâmbulos pelo vilarejo, balbuciando vagarosamente monossílabos que fazem menção à carne crua.

Mesmo admitindo perpetuar o estilo setentista citado, Seres Rastejantes aproxima-se de uma estética mais ligada aos anos 80. Foi nesse período que procriaram obras do gênero conhecido como terrir. Uma seqüência de artigos que sugerem medo e tensão mas que, intercalados por diálogos nonsense e por uma ambientação cafona, não se deixam levar a sério. A música que conduz o amor eterno do casal protagonista é tocada por Air Supply. Há uma série de frases feitas e clichês discursivos que enaltecem a vontade do diretor de tirar sarro do estilo.

Em Seres Rastejantes, nota-se uma coerência de projeto. O resumo da ópera, mesmo tendo sido influenciado por uma vasta bibliografia, não fica excessivo nem pretensioso. O resultado, porém, não chega à altura de suas intenções. Carrega-se um pouco mais do que o necessário no gel com purpurina. Há mais vigor na fonte de inspiração do que no que se vê nas telas. Gunn deixa sua obra enclausurada nas referências e não avança na proposta. Seres Rastejantes funciona como pastiche, mas fica congelado quando o foco é a criatividade. Um pouco mais de carne fresca deixaria as imagens mais vivas.

Érico Fuks é editor do site cinequanon.art.br

Nota do Crítico
Regular