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Rio, Eu Te Amo | Crítica

"Jeitinho brasileiro" cria a antologia mais sincera da série Cities of Love

11.09.2014, às 09H56.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 15H25

Os filmes da série Cities of Love funcionam como um menu degustação, com pequenas porções para conquistar o público de pratos maiores. Criada pelo francês Emmanuel Benbihy, a franquia troca a gastronomia pelo turismo, oferecendo uma experiência rebuscada pela assinatura de diretores renomados. Ou seja, é  mais propaganda do que uma refeição completa.

rio eu te amo

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No caso de Rio, Eu Te amo, a estratégia econômica antes usada por Paris e Nova York é ainda mais descarada. Uma empresa de cosméticos apresenta o longa nos créditos iniciais e dita trechos do filme. Há um esforço para tornar o patrocínio discreto, mas quando se nota que um dos diretores do menu, Vicente Amorim, é responsável por introduzir os mais variados mecenas no longa com a desculpa de unir os diferentes segmentos, fica difícil comprar as intenções artísticas do filme.

Essa colagem é o maior problema de Rio, Eu Te Amo. Em um trabalho coletivo já se espera uma matemática de altos e baixos. Essa necessidade de criar uma conexão, porém, tira o gosto dos trabalhos de outros diretores. A montagem inicial, por exemplo, introduz alguns personagens, mas tira o impacto da entrada de Fernanda Montenegro como a mendiga Dona Fulana no segmento de Andrucha Waddington. Ainda assim, a atriz injeta verdade na senhora que “encheu o saco do sistema” e foi morar nas ruas, mesmo tendo casa e família. Sem Fernanda, o curta seria apenas um trecho de novela, com uma direção global artificial e uma atuação quase escolar de Eduardo Sterblitch.

Das ruas, o filme segue para os abastados com "Grumari", segmento do italiano Paolo Sorrentino. A história coloca Emily Mortimer e Basil Hoffman como um casal milionário que vai à praia da Sereia para “aproveitar a vida”. É um trecho mórbido, com diálogos vazios que parecem ter se perdido na tradução. Vale apenas para ver a atriz inglesa mostrando como (não) se dança o baião. Igualmente estranho é “Eu Te Amo”, de Stephan Elliott. O diretor de Priscilla, a Rainha do Deserto escolheu contar a sua própria história de amor no Rio de Janeiro, colocando Ryan Kwanten e Marcelo Serrado para escalar o Pão de Açúcar (sem equipamento de segurança) e encontrar o amor no topo. Serrado consegue encarnar bem o motorista malandro e sua interação com o gringo é divertida. Sem conhecer o lado “queen” de Elliott, no entanto, fica difícil encarar Bebel Gilberto no espalhafatoso desfecho mágico do curta.

Mesmo assim, essa mistura de drama, humor e fantasia é um dos pontos positivos de Rio, Eu Te Amo e aparece com todas as forças em "Vidigal", do sul-coreano Im Sang-soo. Tonico Pereira é um mordomo/ vampiro que salva uma prostituta (Roberta Rodrigues) “da vida”. Com cenas interessantes, como vampiros sambando no morro, é o trecho mais surpreendente entre tantos diálogos sentimentais e merchãs. Já “Quando não há Mais Amor", de John Turturro, passa quase despercebido. Seu curta sobre dois amantes em crise em um antigo casarão só é notado quando Vanessa Paradis transforma o filme em um musical.

"A Musa", de Fernando Meirelles, é o Rio de Janeiro para gringo ver, com os tipos que passam pela calçada de Copacabana em um trecho sem falas, intercalando tons musicais e silêncio. Filmado em planos fechados e com uma fotografia de alto contraste, a fábula sobre o escultor de areia (Vincent Cassel) em busca da sua musa tem um resultado interessante, ainda que pareça um pouco ingênua. Por outro lado, Carlos Saldanha, mais um brasileiro reconhecido internacionalmente, faz sua estreia como diretor de temas adultos em "Pas de Deux". Bruna Linzmeyer e Rodrigo Santoro são bailarinos no Teatro Municipal que resolvem uma crise no relacionamento por meio da dança. Saldanha conta sua história com delicadeza e sabe aproveitar o próprio talento como animador em função da narrativa: a coreografia dos amantes é mostrada pelas sombras dos bailarinos.

“Texas”, de Guillermo Arriaga, é o segmento mais dramático da antologia. O mexicano, obcecado por amputações e acidentes de carro, continua dentro da temática dos seus roteiros desde Amores Brutos em uma história sobre boxe ilegal, com um lutador de um braço só, e a proposta indecente que pode tirar sua mulher da cadeira de rodas. É um trecho pesado, que se sustenta mais pela ação dos personagens do que pelos diálogos e faz uso de locações inusitadas do Rio de Janeiro - como uma grande piscina abandonada no alto de um morro transformada em ringue.

Já em "Inútil Paisagem", José Padilha usa o cartão-postal absoluto da cidade para fazer a sua crítica, não religiosa, como pregava a polêmica com a Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, mas política. O personagem de Wagner Moura é o brasileiro em crise, que voa em torno do Cristo Redentor antes de se despedir do país. “Tchau, fui, boa Olímpiada”, diz, no mais inesperado diálogo de um filme que prega no título o seu amor pela cidade. O bom humor continua em “Milagre”, de Nadine Labaki, com a história de um menino de rua que espera a ligação de Jesus na Cetral do Brasil. A premissa parece piegas, mas Cauã Antunes, de então 5 anos, explode em cena, contracenando de igual para igual com Harvey Keitel. O desfecho, que também poderia ser demasiadamente açucarado, volta para o humor com um timing perfeito.

Rio, Eu Te Amo é no seu próprio produto um retrato do Brasil. Mistura talento e liberdade criativa com mensagens institucionais, arte com propaganda, crítica social com ufanismo. É uma experiência interessante, prejudicada pelas improvisadas amarrações entre os curtas, mas esse é o "jeitinho brasileiro". Nessa soma, talvez  seja o filme mais sincero do Cities of Love. Pode vir, nós somos assim mesmo.

Nota do Crítico
Bom