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Pietá | Crítica

Kim Ki-duk deixa o pseudobudismo de lado e parte para a franca desgraça alheia

07.10.2012, às 11H18.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H37

Todo artista tem, por princípio, o direito à pretensão. Kim Ki-duk certamente aproveita. Seu décimo-sexto filme, Arirang, é um documentário em que o diretor sul-coreano analisa sua própria carreira, sempre reconhecida pelos festivais europeus. Pietá, o "décimo-oitavo filme de Kim Ki-duk" (é assim que aparece nos créditos iniciais), validou o diretor mais uma vez e ganhou o Festival de Veneza neste ano.

pietá

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Muitas vezes é a pretensão que move artistas para fora de sua zona de conforto. No caso de Kim, a pretensão (e os prêmios) só o fazem cada vez mais à vontade no seu cinema supostamente reflexivo, de poses e de impacto. No caso de Pietá, ele deixa de lado o pseudobudismo dos seus filmes anteriores e parte logo para a desgraça alheia como moeda de troca.

Pietá parte dessa imagem cristã inscrita no pôster do filme - é o nome da escultura de Michelangelo em que Maria põe no colo o corpo de Cristo crucificado - para contar a história de Gang-Do, um cobrador de dívidas no distrito industrial de Cheonggyecheon, em Seul. Dos trabalhadores que não conseguem pagar, ele usa suas próprias máquinas para mutilá-los, pois o dinheiro do seguro vai cobrir a dívida. Que essa estratégia tenha virado rotina (há operários que já pedem para ser mutilados pensando em sacar a indenização) só torna Gang-Do mais miserável.

Não deve ter mãe um tipo desses, você deve supor, e é aí que a trama se Pietá se desenrola. Gang-Do passa a ser perseguido por uma mulher que diz ser sua mãe, que ele não vê há decadas. À sua maneira, o cobrador diz então que vai testá-la... Sem entregar muito, digamos que incesto e canibalismo estão na lista de sadismos que Kim Ki-duk oferece ao espectador masoquista em Pietá, a título de "redenção" do protagonista.

Em teoria, Pietá não é tão nocivo assim. Ao demonizar o dinheiro do submundo da agiotagem, a ideia do filme é criticar a especulação imobiliária em Seul; vemos prédios sendo construídos o tempo todo, o clímax se passa em um edifício abandonado e o último plano de Pietá sobrevoa matas virgens, terrenos a explorar. Para chegar até isso, porém, Kim recorre aos recursos melodramáticos mais rasteiros (antes de ter a mão cortada um dos operários quer tocar violão pela última vez) e aos efeitos mais grosseiros (quando a câmera balança como se estivesse tomando um dos muitos tapas de Gang-Do).

Chega a ser cômica a sequência em que a mãe repete o nome do filho diversas vezes, só para levar um tapa na cara atrás do outro. Se algum dia deixar de vender seu peixe em festivais, talvez Kim Ki-duk possa virar hipnotizador, porque só a repetição inconsequente de uma mesma ofensa deve ter sido capaz de enfeitiçar o júri de Veneza a premiar Pietá.

Pietá | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ruim