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Passageiros | Crítica

Scifi romântico não consegue desfazer a impressão de ser uma paródia de si mesmo

04.01.2017, às 20H00.
Atualizada em 15.02.2017, ÀS 14H44
Se Passageiros já não parecesse suficientemente uma autoparódia de filmes de astronautas e comédias românticas - mais ou menos como aquele que Julia Roberts promove dentro de Um Lugar Chamado Notting Hill - todas as viradas do longa apenas confirmam que estamos diante de uma versão de Interestelar para donas de casa.
 
Chris Pratt e Jennifer Lawrence emprestam ao longa do diretor norueguês Morten Tyldum as presenças privilegiadas de quem está vivendo o melhor momento de sua carreira. Tyldum não se faz de desentendido, e filma Lawrence, sempre que pode, em trajes e situações que valorizam o corpo da atriz (que por sua vez reproduz em cena sua persona da vida real, desligada desse senso de sex appeal, a eterna garota da vizinhança). É essa afabilidade de Lawrence que o personagem de Pratt obviamente enxerga na nave de Passageiros, quando se apaixona por ela.
 
Passageiros parte de uma premissa de ficção científica - 5 mil pessoas escolhem viajar cem anos no espaço para povoar uma colônia da Terra, mas uma falha na hibernação desperta passageiros antes do prazo - para falar, como em todo drama de viagem no espaço, de como nossos medos se amplificam no vácuo. Mas a partir da metade a coisa toda gira em falso. Se algo une a obra prévia de Tyldum (o suspense Headhunters) e seu seguinte desempenho em língua inglesa (O Jogo da Imitação e agora Passageiros) é a constatação de que o ímpeto do discurso é muito maior nesses filmes do que a capacidade de articulá-lo numa dramaturgia de fôlego, de fato. São filmes inchados pela falsa impressão de que têm muito a dizer.
 
É um problema desde a concepção, portanto. No caso de Passageiros, talvez tudo ficasse menos estéril se o roteiro invertesse a perspectiva e contasse a história pelo ponto de vista da jornalista vivida por Lawrence, e não o mecânico interpretado por Pratt. Isso preservaria a surpresa da revelação e evitaria que a virada do terceiro ato (tradicionalmente, quando os enamorados entram em crise antes de se resolverem de vez, na cartilha das comédias românticas) ficasse tanto tempo alojada no estômago do espectador como uma torta mal digerida de climão.
 
Do jeito que saiu, Passageiros não apenas deixa de aproveitar o carisma de Jennifer Lawrence, esvaziada em seu arco dramático e relegada a companhia glorificada de Chris Pratt, como se conforma com as soluções mais imediatas (ainda que o design de produção pareça muito arrojado a princípio). É um filme de astronauta que, planejado para singrar o desconhecido, nunca deixa de estar ancorado na mais completa previsibilidade.
Nota do Crítico
Regular