Desde que Paris Hilton entrou na consciência popular, lá no início dos anos 2000, o que esperamos de nossos ícones pop mudou radicalmente. Infinite Icon: Uma Memória Visual, inclusive, faz um excelente trabalho em ilustrar isso: pela própria virtude de recontar a trajetória de Hilton diante dos holofotes, o documentário deixa claro que, vinte anos atrás, não estávamos interessados em saber quem nossas celebridades eram “na vida real”.
Pessoas como Paris não eram, de fato, reais – no máximo, eram símbolos, caricaturas impressas no papel lustroso das revistas de paparazzi e nas fotos pixeladas do Google Imagens da internet discada. Assim, era mais fácil para cada membro do público manipulá-las ou utilizá-las, seja como apoio para jornadas pessoais de realização e descobrimento, ou superfícies convenientes para projetar inseguranças, invejas ou tesões reprimidos. Se não fosse escandaloso, obscenamente luxuoso ou vexatório, enfim, a intimidade dos famosos não nos valia de nada.
É fácil olhar para isso, como o próprio Infinite Icon tenta fazer, e dizer que evoluímos muito nos últimos vinte e poucos anos. Acontece, é claro, que a cultura de celebridade da atualidade não é menos fabricada ou menos cruel do que aquela que gerou o ícone Paris Hilton; ela só é humilhante de maneiras diferentes. O público que diz querer que seus ídolos sejam “reais” e “pé no chão”, no fundo, está projetando uma pressão e uma inveja similar àquela dos anos 2000. A diferença é que, ao invés de escândalo, hoje se procura virtude.
E Paris Hilton, que tinha muita lascívia para servir vinte anos atrás, parece ter bastante virtude para minar agora. Infinite Icon é, no fundo, um esforço de quase 2h para reposicionar a marca de sua protagonista; e um esforço que não é de agora, visto que a herdeira tem definido o documentário como o “terceiro de um trilogia” (ao lado do seu filme de 2020, This is Paris, e do seu livro de memórias de 2023). Não é à toa que todos esses projetos se focam em partes da intimidade, e do passado, que Paris nunca abriu para o público antes – a ideia, inclusive expressa com todas as letras mais de uma vez no filme, é tachar a Paris do passado como personagem, e a do presente como revelação autêntica.
A história que culmina em Infinite Icon, enfim, é uma que a posiciona como um ícone pop tão contemporâneo hoje quanto era 20 anos atrás. Não que isso invalide a narrativa que ela tem para contar, é claro, ou o valor que esse arco pode agregar. Por exemplo: Paris Hilton se colocar no espaço público como advogada em prol de jovens que passaram pelo que chama de “indústria dos adolescentes perturbados” – chavão para definir um leque de escolas internas e similares, que se aproveitam de pais ricaços que querem “consertar” seus filhos rebeldes para montar programas abusivos e predatórios – é inegavelmente um desenvolvimento positivo para o mundo.
Ademais, a gentileza que ela projeta na direção dessas vítimas, de seus fãs, é real independente do reposicionamento de marca; e a vindicação pelo tratamento desumanizante que ela recebeu da imprensa em seu primeiro auge nos anos 2000, também. Embora o procedimento do filme seja de abnegar as partes verdadeiras da imagem antiga de Paris para substituí-la pela nova, os grãos de verdade que existiam lá, e que existem aqui, no fim das contas são igualmente relevantes – e sobrevive ao tempo, também, a força dos ótimos álbuns pop que são motor das performances ao vivo que formam a espinha dorsal do filme quando ele não está recontando a história da artista.
Infinite Icon, enfim, se apoia na força sugestiva da linguagem do comercial, manipulada brilhantemente pela dupla de diretores Bruce Robertson e JJ Duncan, para criar um recorte convenientemente caótico de uma jornada de revelação e transformação à plena vista, que garante o lugar de Hilton em um panteão seleto de estrelas do passado e do presente. Ou, na melhor linguagem da internet: ela sempre será famosa.