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O Voo | Crítica

Robert Zemeckis volta ao live-action em um filme sobre a responsabilidade do espetáculo

07.02.2013, às 21H08.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H44

Embora tenha passado os últimos dez anos trabalhando com animações com captura de movimento - O Expresso PolarA Lenda de BeowulfOs Fantasmas de Scrooge - Robert Zemeckis retorna ao live-action do ponto onde parou. O Voo (Flight), seu novo longa, tem um senso de redenção ligada ao espetáculo que inicialmente lembra Náufrago (2000).

o voo

o voo

o voo

Não é só um desastre aéreo como gatilho da trama que os dois filmes de Zemeckis têm em comum. Da mesma forma que Tom Hanks vence a morte em Náufrago com um show próprio - ao deixar de ser um carteiro gordo para se tornar o macho alfa da selva - o piloto vivido por Denzel Washington em O Voo também esbanja domínio cênico. Já surge como o diabo da música dos Rolling Stones, pedindo simpatia, e quando chega a hora de mostrar serviço só falta cheirar uma carreira de cocaína com o avião de cabeça pra baixo, para humilhar.

Da atuação expansiva de John Goodman, como o amigo fornecedor de drogas do piloto, à ponta marcante de James Badge Dale, como um paciente de câncer terminal, tudo em O Voo surge pautado pela performance. Como estamos só no começo da história, porém (as autoridades descobrem que o piloto estava drogado e alcoolizado quando evitou o desastre aéreo, o que pode lhe render prisão perpétua), a performance ganha uma carga distinta.

Há uma responsabilidade no espetáculo - é o que Zemeckis parece dizer, neste filme que muitos julgam moralista, quando na verdade é só um conto moral (o que é bem diferente). O diretor se preocupa com toda relação de causa e efeito. Se Washington aparece bêbado numa poltrona, por exemplo, a câmera faz uma pan para revelar as garrafas sobre a mesa de centro. Se ao voltar ao hospital o piloto encontra o copiloto aparentemente saudável, o enfermeiro sai da frente da câmera e podemos ver o estrago sofrido no acidente. Zemeckis filma esses momentos com teatralidade (ou "performance", para ficar num termo só) para que não fique dúvidas da gravidade.

Não é por acaso que, de todas as questões que O Voo aborda - do escape na religião ao comentário sobre o corporativismo -, a principal seja a questão midiática, porque afinal o espetáculo está contido nela. Do hospital, o piloto assiste ao seu pouso espetacular nos noticiários na TV, então desde o início ele tem consciência do caráter midiático de sua história. Zemeckis engana o espectador, faz crer que o piloto alcançará sua redenção na privacidade de uma noite sem nuvens (de onde, como ao longo do filme, podemos ouvir um novo avião no céu), mas só num evento midiático é possível assumir responsabilidades de fato.

E o piloto as encara, obviamente, mas não sem antes dar um último show, para poucos privilegiados e em segredo, digno dos maiores roqueiros destruidores de quartos de hotel.

O Voo | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ótimo