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Crítica

O Tigre Branco é um conto de fadas cruel e real

Referenciando Quem Quer Ser um Milionário? de modo direto, longa de Ramin Bahrani é história de ascensão social muito mais pé no chão

26.01.2021, às 18H14.

Se a história de O Tigre Branco, de um jovem pobre da Índia que supera dificuldades até se tornar rico, te lembra Quem Quer Ser um Milionário? você não está enganado. Claro, são poucas as histórias indianas que chegam ao mainstream no Brasil, mas existe mais do que um contexto conectando essas duas jornadas. O tema da ascensão social e a estrutura de flashback poderiam ser suficientes para fazer a relação, mas O Tigre Branco parece insistentemente querer servir como a antítese do filme de Danny Boyle. O longa lançado pela Netflix é tão mais real e cruel que faz questão de te falar com todas as letras: “não acredite nem por um segundo que há um jogo milionário de perguntas e respostas que você pode ganhar para poder sair daqui”. 

Isso não quer dizer que o filme de Ramin Bahrani se distancie da construção de um conto de fadas, mas sim que ele distorce esse tipo de história e a leva para um universo sombrio. Em ritmo acelerado, o filme se inicia com três personagens em um carro em alta velocidade, e nosso protagonista no banco de trás, contorcendo-se para tentar controlar a motorista alcoolizada. Em poucos segundos, a tragédia acontece: uma criança atravessa a rua, nossa história é interrompida, e somos levados ao futuro, em que o personagem principal narra sua trajetória.

Balram, já rico, engomadinho e visivelmente um empreendedor bem-sucedido, nos conta de sua infância como um garoto promissor da pequena cidade de Laxmangarh, que abandona os estudos para ajudar a família na loja de chás. Ambicioso, mas sem nenhum recurso, ele começa a escalada social no momento em que vê sua primeira oportunidade, e se torna motorista da família mafiosa da cidade, trabalhando como funcionário de Ashok (Rajkummar Rao), o herdeiro que retornou dos Estados Unidos com a esposa, Pinky (Priyanka Chopra Jonas). Estabelecida a premissa, Bahrani passa quase toda a duração do filme prolongando a expectativa da reviravolta, e sempre brincando com a antecipação do espectador, que passa quase duas horas se perguntando: como será que Balram enriquece? 

Assim como acontece com adaptações cinematográficas em geral, ao levar o livro de Aravind Adiga para as telas, Bahrani lida com a difícil tarefa de recontar uma história longa e com muitos acontecimentos. Aqui, no entanto, a transição funciona porque o diretor e roteirista soube criar uma estrutura de desenvolvimento focada nas relações. Por mais que diversos personagens sejam quase caricatos, as passagens da história investem em suas dinâmicas com Balram, e é isso que importa. O Tigre Branco retrata tensões entre seus personagens de modo afiado e desconfortável. 

Isso é muito bem feito exatamente porque O Tigre Branco pede que seu espectador invista em um anti-herói altamente questionável. Balram é uma figura desprezível, mas ele gera empatia por sua situação social, sua impossibilidade de ascensão e, mais do que tudo, pela dificuldade psicológica de sair de sua posição. Desse modo, vê-lo em situações desumanas em relação a Ashok, Pinky, e os membros do alto escalão da família é o que constrói sua problemática. O Tigre Branco faz do espectador testemunha dos crimes cometidos contra Balram - sejam eles simbólicos ou muito concretos - e assim faz dele um aliado. 

Isso é resultado da performance bombástica de Adarsh Gourav que, apesar de ter cenas de explosão de sentimentos - que podem render uma indicação ao Oscar perfeitamente justa -, brilha muito pelos momentos sutis. Sua relação com Ashok, desigual e absolutamente universal, é fundamental para enxergar isso. Por mais próximo que o filho milionário queira parecer de seu funcionário, ele nunca deixa de exalar arrogância, e o olhar de Balram traduz seu desgaste em relação a isso, do começo ao fim.

Muito da energia opressora de O Tigre Branco também está na fotografia. Carregada de elementos, e sempre brincando com a ideia de luz e sombras como uma analogia para o sistema de castas (reduzido por Balram como um jogo dos que têm e os que não têm), as imagens nunca são gratuitas. Em momentos contrastantes, Bahrani se utiliza de diferentes perspectivas de um mesmo prédio para revelar o estado da alma de Balram. Quando ele vai a Delhi pela primeira vez, conta os andares do monumento e seus dedos quase alcançam o topo. Quando Balram se vê encurralado em uma situação trágica, o mesmo prédio é visto de baixo, e aquele mesmo topo se torna inatingível. 

O Tigre Branco certamente não é um filme sutil. É prolongadamente desconfortável e se desenvolve para um encerramento catártico, sombrio, e por mais fantástico, real. Construída como uma história profundamente indiana, o filme arremata quando sugere a universalidade de sua representação, e ainda finaliza com uma conclusão simbólica  e admirável. 

Nota do Crítico
Ótimo