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O Sal da Terra | Crítica

O libelo ambientalista enquanto egotrip

25.03.2015, às 20H02.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H43

Foi a convite de Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo Sebastião Salgado, que Wim Wenders aceitou codirigir o documentário O Sal da Terra (The Salt of the Earth, 2014). Wenders abre o filme falando de como tomou contato com a obra do brasileiro, há 20 anos, numa galeria de arte, e de como seria impossível recusar a oferta de Juliano de acompanhar o pai em campo e na intimidade.

o sal da terra

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É com esse tom de testamento de família, falsamente informal e revestido de solenidade, que O Sal da Terra se desenvolve, ao mesmo tempo em que Wenders, ao dar seu carimbo de qualidade à obra do fotógrafo ("essa fotografia está na parede acima da minha escrivaninha desde que a vi"), se vê na necessidade de justificar tanto a existência do documentário quanto a sua participação no projeto.

Há uma boa dose de ego em jogo, logo se percebe. E embora O Sal da Terra não esteja abordando esse assunto diretamente - o filme é organizado, a partir da cronologia da obra de Salgado, como um libelo ambientalista - é incontornável que trate de ego, da figura do fotógrafo não como observador mas como ator. É uma questão ética, ademais, com que Sebastião Salgado sempre depara quando acusado de estetizar a miséria com seu trabalho.

E o que se vê em O Sal da Terra é um fotógrafo que assume sua responsabilidade de agente transformador, com a cumplicidade do cineasta, apenas naquilo que lhe interessa: é o fotógrafo benfeitor, que planta árvores, e que se gaba de passar anos viajando para ganhar a confiança das pessoas ("é o retratado que decide dar um retrato a você").

É óbvio que Salgado está interessado em fazer deste filme o registro do seu legado, e é legítimo que o procure. Já Wenders não parece perceber que o ego desponta em momentos aparentemente banais, como quando o brasileiro se refere a uma baleia ou a um índio como "meu amigo". Há um sentimento de posse inscrito aí, como um herdeiro de terras que reivindica propriedade sobre o que vê, porque é assim que foi criado a ser.

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Nota do Crítico
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