O Lobo de Wall Street/Divulgação

Filmes

Crítica

O Lobo de Wall Street

Martin Scorsese refaz os jogos de perspectivas e ilusões de filmes anteriores, agora em chave francamente cômica

23.01.2014, às 15H52.
Atualizada em 28.05.2020, ÀS 15H37

Pelas similaridades da trama, da sedução do crime à traição, a comparação imediata que O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) gera entre os filmes de Martin Scorsese é com Os Bons Companheiros (1990), mas a adaptação ao cinema do livro homônimo que narra a história de Jordan Belfort tem mais a ver com outro clássico de gângster do cineasta, Cassino (1995).

Ex-corretor da Bolsa de Nova York, Belfort fez fortuna nos anos 1990 explorando a fugacidade do mercado financeiro, um mundo onde se movimentam fortunas sem pudor ou remorso porque elas são, em boa medida, absolutamente imateriais. É o que diz, ainda nos anos 1980, o primeiro patrão de Belfort (Leonardo DiCaprio), interpretado no filme por Matthew McConaughey: o único dinheiro "real" naquele mundo de ações e flutuações é a comissão do corretor.

Mas a moeda também não deixa de ser um meio, uma convenção. Enquanto objeto criado para atribuir valor às coisas, ela não é um fim em si mesma; de que adiantaria ser rico sem gastar um centavo? O poder que o dinheiro tem, então, em última instância, é o de dar forma à realidade. Em Cassino isso é evidente: o filme se passa no meio de um deserto, o de Nevada, e ali o personagem de Robert De Niro molda seus sonhos à base de fichas de plástico, até o momento em que é forçado a dirigir para fora de Las Vegas e desperta: o lugar que ele imaginou para si ainda continua sendo um deserto.

Até perceber que também habita uma miragem, Belfort sem dúvida aproveita como consegue. O Lobo de Wall Street são três horas de drogas, mulheres, bebida, luxo e todo tipo de fantasia (com anões, carros, animais) que o dinheiro pode pagar. Scorsese e o roteirista Terence Winter fazem seu comentário sobre a imoralidade da vocação especulativa de Wall Street como se estivessem realizando um Se Beber, Não Case! ou qualquer outra comédia de ressaca, e testando não necessariamente os limites do bom senso, mas acima de tudo os limites da realidade.

Porque o caso de Belfort aqui, como o de De Niro em Cassino, continua sendo a maneira como esses personagens constroem uma realidade de sonho para si. De Niro tem todas as luzes de Las Vegas e o brilho das joias de Sharon Stone para atordoá-lo, enquanto Belfort vê pelo filtro de estimulantes e sedativos o mundo que seu dinheiro criou. Quando o seu escritório se enche de repente de strippers, bichos e fanfarras em meio aos engravatados, ou quando um avião lotado sacode e fica impossível definir onde termina um corpo e começa o próximo, parece que estamos diante de pinturas de um bacanal renascentista ou mesmo um daqueles quadros de Onde Está Wally?, representações aumentadas da realidade.

É engraçado notar que tanta gente sai do cinema revoltada com os excessos de O Lobo de Wall Street, porque na verdade essas cenas são de certa forma irreais na sua idealização, justamente pelos excessos. O fato de os personagens não enxergarem essa irrealidade é tema central aqui e fonte de uma piada atrás da outra. Belfort evita o quanto pode racionalizar o mundo ao seu redor ("Esquece, você não está prestando atenção mesmo", esquiva-se diante do espectador quando precisa explicar algo) e as consequências têm efeito tragicômico, quando não puramente cômico. "Eu realmente acabei de ver aquele avião explodir na minha frente?", questiona o personagem numa cena.

Entre chroma-keys propositalmente artificiais (Londres e Suíça nunca tiveram aquela paisagem verde-limão) e imagens pensadas para nos revelar a forma distorcida como Belfort vê tudo (o plano em que a mulher dá as costas a ele entre a fumaça e a água turva do vidro do carro é um exemplo), Scorsese nunca deixa de dar pistas de que há algo de errado no olhar, desde o momento em que a Ferrari muda de cor sob o comando do narrador. Não por acaso, a atuação de DiCaprio aqui lembra os estados de transe de seus personagens em O Aviador e Ilha do Medo, dois outros filmes narrados pelo ponto de vista duvidoso dos seus protagonistas, como fluxos de consciência.

Então engana-se quem acha que O Lobo de Wall Street faz o elogio do excesso, embora o filme se divirta bastante com a glória de Belfort. Ao nos impor a perspectiva do personagem sem meios termos - a ponto de o filme abrir não com a vinheta da Paramount e sim com a da firma do corretor - Scorsese desafia o espectador a questionar não só o que vê mas também o que sente.

O Lobo de Wall Street | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ótimo