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Crítica

Crítica: O ilusionista

O ilusionista

07.12.2006, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H20

Em Hollywood, basta surgir um projeto interessante, que ele logo acaba se tornando dois. As idéias parecem nascer em pares nas cabeças dos executivos norte-americanos. Desta vez, o tema em questão é a mágica. Enquanto aguardamos ansiosamente The Prestige, de Christopher Nolan, O Ilusionista (The Illusionist, 2006), de Neil Burger, sai na frente com uma proposta nostálgica e muito bem realizada. Um filme repleto de imaginação e mistério. Mesmo sendo o seu segundo longa-metragem - o primeiro com dois excelentes atores -, Burger dirige como veterano.

O Ilusionista

O Ilusionista

O Ilusionista

O projeto é baseado no conto "Eisenheim, the Illusionist", escrito por Steven Milhauser, ganhador do prêmio Pulitzer em 1997 pelo livro The Tale of an American Dreamer. Na trama, um garoto humilde que mora na cidade de Viena se torna um apaixonado por ilusionismo depois de conhecer um mágico na estrada.

Ainda jovem, ele conhece uma linda menina chamada Sophie. Ela pertence à aristocracia local e mesmo com todas as diferenças, os dois desenvolvem uma forte relação de amizade. Porém, devido às diferenças sociais, eles são proibidos de se verem.

Sem alternativa, o garoto resolve sair pelo mundo para aperfeiçoar a sua mágica. Anos depois, quando ele retorna à cidade, é um famoso ilusionista conhecido como Eisenheim. Suas apresentações despertam a curiosidade de um dos mais poderosos e céticos homens da Europa, o Príncipe Leopold. Quando Sophie, noiva de Leopold, é chamada ao palco para participar de um número, ela logo reconhece seu antigo amigo. A pedido do príncipe, o mágico é convidado a fazer uma apresentação diante da nobreza. Certo de que seus truques não passam de fraudes, Leopold está disposto a desmascará-lo, mas acaba sendo humilhado na frente de todos. Para piorar, Eisenheim e Sophie iniciam um romance clandestino. O príncipe delega ao inspetor Uhl a missão de expor a verdade por trás do trabalho do mágico. A partir daí começa um jogo de gato e rato entre os dois.

Cinema mágico

Da história original, Neil Burger só aproveitou o nome Eisenheim e algumas outras características. A grande inspiração para o seu roteiro são mesmo os filmes do começo do século 20. E fica impossível não associar este projeto ao trabalho do francês George Méliès, o mágico que se tornou cineasta. Foi ele que, no início da sétima arte, introduziu no cinema o enredo, o desenvolvimento de personagens, a fantasia na narrativa e uma série de efeitos especiais (slow motion, fades, stop motion, truques com espelhos, entre outras técnicas).

Inspirado nesse momento mágico da história do cinema, Neil Burger deu à sua narrativa uma aura de mistério. Toda a estética do filme nos remete ao cinema mudo, com cenas pouco iluminadas e etéreas. Até as técnicas de edição homenageiam o fade em formato de bola tão usado na época.

O trabalho de fotografia de Dick Pope é fantástico. Ele captura com perfeição a impressionante arquitetura gótica da cidade de Praga, que serviu de cenário para representar Viena. O responsável por transformar uma cidade na outra é o cinegrafista Ondrej Nakvasil. A trilha sonora do compositor Philip Glass completa perfeitamente a narrativa alternando suspense e dramaticidade.

Mas mesmo com todo esse apuro técnico, era necessário um elenco que proporcionasse credibilidade às situações que estavam no roteiro. Para o papel de Eisenheim, temos Edward Norton, um dos atores mais brilhantes de sua geração. É impossível não ser hipnotizado quando ele está em cena realizando suas ilusões. Quem interpreta o chefe inspetor de policia Uhl é Paul Giamatti. Já está soando repetitivo dizer que ele constrói aqui mais um personagem inesquecível. Rufus Sewell faz o Príncipe Leopold e, mesmo sendo o vilão, ele vai construindo seu personagem sem exagerar. Quem surpreende é Jessica Biel. Mais acostumada a fazer papel de mocinha, ela não compromete como Sophie.

O trabalho dos atores não ficou restrito ao talento interpretativo, especialmente no caso de Edward Norton. O ator foi treinado pelo ilusionista David Blaine. Muitas cenas foram feitas usando truques simples de magia, evitando-se ao máximo os efeitos especiais de última geração. Com essa premissa, Burger procurou ser o mais real possível, mesmo utilizando várias licenças poéticas no campo das artes, religião e política. Sua intenção era realizar um filme que ficasse no limite entre o sonho e a realidade, entre o consciente e o subconsciente. Não é à toa que escolheu Viena para ambientar a sua história. Freud ficaria orgulhoso.

Nota do Crítico
Ótimo