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Crítica

O Homem da Máfia | Crítica

A crise financeira de 2008 transposta para a Boston de George V. Higgins

29.11.2012, às 17H03.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H35

"Vou te contar uma coisa", diz James Gandolfini para Brad Pitt a certa altura de O Homem da Máfia (Killing Them Softly), um filme falado, essencialmente feito de negociações, conversa mole e uma ou outra confissão forçada. "Sabe o que é bom de verdade? O c* de uma jovem judia que se prostitui. You take that to the bank, my friend."

o homem da máfia

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Essa expressão em inglês - "leve essa para o banco" significa algo como "pode confiar, é a mais pura verdade" - diz muito sobre a cultura dos EUA e sobre uma tradição de confiança nas instituições financeiras que foi quebrada na crise de 2008. Hoje entende-se que o colapso foi motivado em boa medida pela política de desregulamentação do setor, nos governos Clinton e W. Bush. Se confiamos nos bancos acima de tudo, afinal, para que botar o governo ou alguma agência reguladora para vigiá-los?

Deu no que deu. Bush terminou seu mandato naquele ano autorizando uma intervenção pesada e uma injeção monstro de dinheiro nos bancos de investimento para conter a sangria de Wall Street. A recessão tem sido ostensivamente tratada em filmes como Trabalho Interno e Margin Call - sem contar os que abordam a crise indiretamente, como um estado de espírito da nação - e com O Homem da Máfia não é diferente.

Na verdade, o longa do australiano Andrew Dominik não se limita a tratá-la como metáfora; há tantas referências e tantos paralelos ao longo do filme que conhecer, pelo menos por cima, os eventos da crise de crédito se torna um requisito para entender o que Dominik está tentando dizer. Ele pega o romance de 1974 Cogan's Trade, de George V. Higgins (autor de histórias de máfia em Boston como o livro que deu origem ao clássico Os Amigos de Eddie Coyle), e traz a trama para 2008 justamente para falar do colapso.

Jackie Cogan, o personagem de Brad Pitt, por exemplo, o tal "homem da máfia", é um interventor como Hank Paulson, o Secretário do Tesouro dos EUA que liderou a manobra no auge da crise. Jackie surge depois de uns 30 minutos de trama, enquanto no rádio ao fundo (o filme é cheio de rádios e TVs sintonizadas no noticiário) se escuta sobre a intervenção do governo - o que define o paralelo entre os dois. Como Paulson foi um megabanqueiro antes de se tornar Secretário do Tesouro, dá pra dizer que ele, assim como Jackie, também é um "homem da máfia".

Na trama, Jackie serve de interventor "estatal" dos gângsteres de Boston para investigar quem praticou o assalto a um jogo de pôquer de alto nível que ocorria sob proteção da máfia. Bem vestido e penteado, de fala tranquila e movimentos suaves, Jackie é o típico Mr. Wolf, o solucionador que só se irrita quando presencia a incompetência dos outros. Em O Homem da Máfia, os "outros" são basicamente todas as pessoas que reclamam da falta de dinheiro e de oportunidades por conta da crise.

Dominik filma uma Boston que parece estar já no auge da recessão, uma cidade largada desde o primeiro plano, quando a câmera sai de um túnel em direção a um páteo cheio de lixo. A pouca ação de O Homem da Máfia acontece em noites chuvosas, ruas desertas e bares vazios - um cenário de apocalipse. Quando um personagem é assassinado num cruzamento, chega a ser cômico o momento em que o carro dele é atingido por outros dois veículos; em nenhuma outra cena do filme se vê tanto tráfego.

Essa ambientação é o ponto forte de Dominik, mais do que o discurso. Ela dá o tom de um filme soturno e desesperançado que pesa a mão na literalidade do seu Retrato da América e que fica no limite entre o engenho e a pretensão, assim como o filme anterior do diretor com Pitt, O Assassinato de Jesse James.

Talvez, no fim das contas, seja mais negócio assistir a Grande Demais para Quebrar (Too Big to Fail), de 2011, o melhor filme sobre a crise, em que Curtis Hanson refaz o percurso da intervenção - com William Hurt excepcional do papel de Hank Paulson - e que é, aí sim, um assombroso thriller de máfia cheio de ação.

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Nota do Crítico
Bom