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Crítica

Robusto em informação e estilo, Nuisance Bear é documentário perfeito

Premiado em Sundance, filme pinta retrato vívido sem precisar se explicar demais

3 min de leitura
03.02.2026, às 07H00.

Créditos da imagem: Nuisance Bear (Reprodução)

Nuisance Bear lança mão de só uma entrevista tradicional, dada direto para a câmera, em sua 1h30 de metragem. Trata-se de uma conversa com Mike Tunalaaq Gibbons, residente idoso de uma vila majoritariamente inuíte ao norte de Churchill (Canadá), que precisa lidar com os ursos polares que cruzam a região anualmente durante sua migração. E os diretores de Nuisance Bear tiram o máximo desse papo, entrecortando a história de Gibbons – que fala de ancestralidade, transformações históricas e traumas familiares, temas inesperadamente conectados à migração dos ursos – por todo o filme, utilizando-o quase como um narrador-comentarista de cada passo dessa jornada.

O resto do documentário, premiado com o Grand Jury Prize no Festival de Sundance 2026, emprega um estilo observacional, pontuado aqui e ali por segmentos mais didáticos sobre os procedimentos únicos que a região de Churchill teve que adotar por se localizar no meio da rota dos ursos. Os diretores Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman claramente conhecem o terreno que querem cobrir (até porque este Nuisance Bear é a expansão de um curta de mesmo nome, de 2021), e entendem o apelo inerente de destrinchar o desconhecido, de mostrar um modo de vida ao qual pouca gente tem acesso. O que é rotina para eles, é curiosidade para nós.

Esse é o motor, principalmente, da primeira parte do filme. Conforme acompanhamos os residentes, autoridades e negócios de Churchill sendo chacoalhados pela presença de um dos maiores predadores do Ártico no meio de suas ruas, Nuisance Bear constrói com eficiência a linha do tempo de um choque simbólico entre a civilização ocidental contemporânea e a natureza: o urso chega, encontra partes do mundo moderno que não lhe pertencem (lixões, pedreiras, turistas, fotógrafos), e a convivência se torna lentamente insustentável. O filme, por sua vez, acompanha este desencontro como fato, não como tese – até a página dois.

Especialmente depois que Nuisance Bear (e seu personagem título) deixa a cidade de Churchill, Vanden e Weisman parecem concluir que é impossível não se envolver. O contraste criado aqui é entre uma cidade que deseja seguir “produzindo”, mas é atrapalhada pelo fluxo da natureza, e uma vila que mantém por pouco as suas tradições, voltadas para a aceitação do confronto entre homem e animal, mas que vê o equilíbrio desse confronto se perder diante da interferência externa. Um local luta pela prevalência do colonialismo, e outro resiste (cada vez menos, mas resiste) a ele.

Nuisance Bear não é simplista o bastante para imputar as consequências desastrosas do “progresso” promovido pelo modelo colonial às pessoas de Churchill, é claro. Aqui, a irreversibilidade desse processo histórico ganha tintas de tragédia, uma inclinação tonal que a dupla de diretores faz bem em nutrir com uma fotografia que sublinha o desolamento hostil das paisagens nevadas nas quais sua história se passa, e uma excelente trilha sonora (assinada por Cristobal Tapia de Veer, de The White Lotus) calcada em sintetizadores severos, utilizados sob medida para criar a contemplação sóbria proposta pelo longa.

Conforme o tom quase operático criado por essas escolhas estilísticas vai tomando conta de Nuisance Bear, na segunda metade do filme, ele cresce. Rico em informação e imerso exemplarmente no cantinho do mundo que pretende retratar, o documentário vai ganhando também uma ressonância que ultrapassa as questões superficiais que ele poderia levantar, e se coloca como registro de um processo histórico que não começa nem termina com ele. É a melhor posição à qual um pedaço de cinema pode almejar.

*Nuisance Bear foi exibido no Festival de Sundance 2026. Ainda não há previsão de estreia no circuito comercial brasileiro.

Nota do Crítico

Excelente!

Nuisance Bear

2026
90 min
País: Canadá, EUA
Direção: Jack Weisman, Gabriela Osio Vanden