Cena de Meu Tio José (Reprodução)

Filmes

Crítica

Animação Meu Tio José revisita ditadura militar através de gancho emocional

Filme com voz de Wagner Moura será exibido na Mostra de SP

21.10.2021, às 14H51.

A decisão criativa mais acertada de Meu Tio José, animação dirigida por Ducca Rios exibida na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2021, é contar a sua história de resistência à ditadura militar pelos olhos de uma criança. A forma como o jovem protagonista, Adonias, vai aos poucos descobrindo a história de seu tio faz o filme adquirir um tom didático oportuno, que desvela as hipocrisias e os horrores da ditadura de maneira clara, mas também fundada em uma narrativa emocionalmente sólida, que personaliza esses horrores ao invés de abstraí-los como parte de um todo.

Adonias é um adolescente de classe média em Salvador em meados dos anos 1980, época em que seu tio é baleado pouco depois de voltar a morar com a família, vindo de um longo período no exterior. Como descobrimos, José (voz de Wagner Moura na fase adulta) estava em exílio, após fazer parte da luta armada contra a ditadura militar - mais especificamente, da Dissidência da Guanabara, famosamente responsável pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969.

Conforme o protagonista ouve pedaços da história de vida do tio de vários familiares diferentes, e lida com seus próprios conflitos ideológicos na escola, Meu Tio José se mostra um filme de delicadeza insuspeita. Apesar dos diálogos que lutam entre a formalidade do português escrito e a fluidez do português falado, a obra de Rios se esforça bastante no que importa: a humanização dos personagens, a comunicação de suas angústias e histórias, conectando-os ao espectador de maneira bastante eficiente.

O visual do filme, enquanto isso, é cru, se aproximando de uma história em quadrinhos digital com suas linhas retas e seu persistente preto-e-branco - só às vezes quebrado por toques de cor, principalmente o simbólico vermelho-comunista. É uma escolha estilística firme, que torna as raras incursões do filme por território mais experimental ainda mais impactantes, especialmente nos “delírios” de Adonias, desenhados a giz e embalados por covers instrumentais de clássicos de Chico Buarque.

Lembrete valoroso dos perigos do autoritarismo, do policiamento ideológico, e do deterioramento dos pilares democráticos, Meu Tio José é um filme político, com ponto de vista sólido e admitido, mas também uma história sensível que usa os poderes do cinema como arte para apelar à humanidade de quem o assiste. Na maior parte do tempo, a aposta funciona muito bem.

Nota do Crítico
Ótimo