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Crítica

Luta por Justiça

Drama legal com Michael B. Jordan e Jamie Foxx segue a cartilha do gênero, mas carrega verdade na construção dos personagens

10.03.2020, às 11H56.

Uma injustiça leva a um sentimento de revolta, mas essa inquietação surge apenas para quem compreende o erro de julgamento. A incompreensão de outros adiciona uma nova camada à revolta, o que cria um ciclo de angústia. 

Luta por Justiça (Just Mercy) trata de todos os lados desse problema: do falso réu, de quem não fecha os olhos para ele e de quem precisa de um culpado a qualquer custo. Baseado nas memórias de Bryan Stevenson, o filme acompanha a batalha de um jovem advogado idealista (Michael B. Jordan) para libertar Walter McMillian (Jamie Foxx), condenado à morte injustamente pelo assassinato de uma jovem em uma pequena cidade no Alabama. 

O drama legal segue a cartilha do gênero. É calculado para que a trama cause o esperado sentimento de indignação. O roteiro, porém, não se limita às idas e vindas do tribunal. A acusação contra McMillian surge em um ambiente onde o racismo é um traço social. Quando a estrutura que deveria proteger a todos — polícia/sistema judiciário/governo — fecha propositalmente os olhos para uma parte da população, a esperada angústia gerada pela injustiça se torna insustentável, e assustadoramente atual. 

Nesse contexto é natural tomar os contornos de uma caricatura do bem contra o mal. Luta por Justiça, porém, opta pelo caminho da empatia. Há um esforço do diretor e roteirista Destin Daniel Cretton (que vai comandar Shang-Chi para a Marvel) para que se entenda as motivações de cada personagem, seja o Stevenson, confrontado pela desigualdade do seu destino e de outros jovens negros nos EUA, o de Eva Ansley (Brie Larson), uma psicóloga que viu de perto os danos causados pela lógica social ao seu redor, e até mesmo do promotor Tommy Chapman (Rafe Spall), tão assustado em questionar o que toma como normalidade que assume o posto de algoz. Mesmo McMillian não é retratado com linhas heroicas. Ele é apenas humano. 

Esse cuidado em não simplificar os personagens, ampliado por atuações consistentes, dá ao filme a verdade essencial para não romancear uma narrativa baseada em fatos. Ralph Myers (Tim Blake Nelson), manipulado como instrumento da condenação de McMillian, representa um dos melhores momentos dessa abordagem, humanizando quem antes parecia apenas desprezível. 

Há um tom educacional que acompanha Luta por Justiça, a consciência que o longa representa o legado de Stevenson e Ansley na iniciativa por justiça igualitária, salvando dezenas de prisioneiros negros condenados injustamente à morte. Essa preocupação constante limita o filme às suas obrigações, mas o olhar de Cretton garante sensibilidade para que essa não seja apenas uma reconstrução protocolar. A angústia de McMillian é compartilhada, culminando em uma revolta que permanece no correr dos créditos.

Nota do Crítico
Bom