Filmes

Crítica

Com pé em Divertida Mente, Luck explora sorte e azar com algum carisma

Projeto de retorno de John Lasseter ao mundo de animações conta com Simon Pegg e Jane Fonda no elenco

04.08.2022, às 13H59.

Apresentar conceitos complexos e subjetivos de forma esquematizada e terrena foi o brilho que tornou Divertida Mente um dos filmes mais inesquecíveis da Pixar. Alguns anos depois, o mesmo princípio foi desenvolvido de forma ainda mais absurda em Soul, passando do funcionamento psicológico para, simplesmente, a exploração do conceito de vida e morte. Cinco anos depois de deixar a Pixar sob acusações de má conduta, o produtor executivo John Lasseter procura acertar baseando-se precisamente nessa fórmula com Luck

O longa - escrito por Kiel Murray e dirigido por Peggy Holmes, também ex-Disney - marca a estreia de Lasseter no comando do estúdio Skydance Animation. Aqui, somos introduzidos à Terra da Sorte, um universo escondido dos seres humanos onde pequenas criaturas como leprechauns, joaninhas e felinos criam e espalham a sorte pelo mundo. No submundo, goblins e raízes trabalham na fabricação e manutenção do azar. A nossa visita nesse universo acontece sob os olhos de Sam Greenfield (Eva Noblezada), uma adolescente absurdamente azarada, que guiada pelo suspeito e carismático gato preto Bob (Simon Pegg - e Gregório Duvivier na versão dublada) explora o novo universo para encontrar uma moeda da sorte para chamar de sua. 

O deslize principal aqui é precisamente a lembrança de filmes superiores construídos da mesma maneira. Não é que a Terra da Sorte, Sam e Bob não sejam bem carismáticos; Luck tem sim seu brilho em personagens cativantes e um mundo construído de forma encantadora que certamente agradará os pequenos espectadores. Mas enquanto cada detalhe de Divertida Mente e Soul extrapola seu contexto e pretende significar algo tão maior, Luck desliza na construção do seu universo por definição. Ele é mágico, sim, mas carece de um motivo de existência, uma metáfora que realmente funcione para além de um mundo de criaturas fofas. 

Por isso, Luck compensa na fofura. Sem grandes pretensões, a animação funciona quase como um conto, um sonho, onde acompanhamos a jornada de uma garota órfã para entender a importância do equilíbrio entre azar e sorte - mesmo que esta seja uma lição bem mais fácil de internalizar para quem é abençoado pela boa fortuna. Nesta jornada, Bob rouba a cena desde sua primeira aparição, com um visual imediatamente cativante, e a sequência em que ele caminha pelas ruas da cidade abusando da sorte para escapar de Sam é a que melhor captura tanto a essência felina quanto a simples noção da sorte em um indivíduo. 

E se é na fofura que Luck ganha, porque não abusar dela e deixar ser levado por isso? Na nossa viagem pela Terra mágica da sorte, enquanto o universo e seu funcionamento significam pouco, é difícil não abrir um sorriso quando um mutirão de coelhinhos (cujo visual também ganha pontos) dança em uma coreografia absurda, ou quando um unicórnio dublado por Flula Borg se abre sobre um amor não correspondido. Borg, inclusive, se sobressai mesmo em uma produção onde temos Whoopi Goldberg como a Capitã da Terra da Sorte e Jane Fonda como uma dragoa CEO.

Luck é um filme sem grandes pretensões de grandiosidade, lançado diretamente no streaming, e é difícil não entender o movimento como intencional precisamente por ser o retorno de Lasseter na produção de um longa animado - iniciativa que o cineasta e executivo toma com discrição. Assumindo poucos riscos, Luck é uma animação singela, que deve passar por nós sem chamar muita atenção - mas que pode agradar quem decidir ir atrás. 

Nota do Crítico
Bom