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Kurt Cobain: Montage of Heck | Crítica

Documentário com acesso aos arquivos do líder do Nirvana busca no passado as razões para o vazio

10.02.2015, às 23H04.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H41

Poucos minutos antes de acabar, Kurt Cobain: Montage of the Heck dá aquela notícia que todo mundo preferia nunca ter lido: "No dia 5 de abril de 1994, Kurt Cobain se suicidou". Nada que ninguém ainda não sabia, mas depois de passar 132 minutos absolutamente mergulhados na alma, nos medos e na vida do frontman do Nirvana, é impossível não ser afetado pela "notícia".

Ao contrário de muitas biografias autorizadas, o documentário de Brett Morgen, bancado pela HBO e exibido no Festival de Berlim depois de passar por Sundance, deixa Kurt Cobain contar sua própria história sem muito filtro. Nele, o espectador não se surpreende ao ouvir Courtney Love admitir ter usado heroína durante a gravidez, fica com raiva da madrasta que, apesar de relatar o quão visível era o desejo de Cobain em ter uma família, o colocou para fora de casa, e ri quando o próprio vocalista descreve sua primeira experiência com a maconha.

Morgen cria uma experiência envolvente em que os depoimentos ajudam a entender melhor o comportamento de Cobain, e deixa o próprio falar por si mesmo. Feito de forma cronológica, o filme mostra o autor de "Smells Like Teen Spirit" ainda bebê dando seus primeiros passos, apagando velas de aniversário, brincando como qualquer criança A quantidade de material pessoal e inédito deixa clara a intenção do filme de fazer um registro completo da vida de Cobain e, quem sabe, ajudar a entender sua alma inquieta. Isso só foi possível porque Brett teve acesso irrestrito a todo o acervo da família de Cobain. Com 200 horas de canções inéditas, áudio e filmes caseiros, caixas cheias de obras de arte e mais de 4.000 páginas de anotações e desenhos para analisar, o diretor levou oito anos para finalizar o longa. A filha do casal, Frances Bean Cobain, serve de produtora do filme.

Como se esperaria de um filme assim, Montagem of Heck tem um amontoado de imagens de shows, notícias e entrevistas insípidas de TV, mas tudo isso faz mais sentido ao lado dos traços perturbadores, dos poemas incompletos e das listas aspiracionais feitas por Cobain e inseridas como animação no longa. É um olhar profundo e desorientador sobre a vida e a fama através dos olhos do próprio biografado.

Lá pelo meio do filme, o espectador começa a se perguntar por que Dave Grohl não aparece. Morgen entrevistou os pais, a madrasta, a irmã, a ex-namorada, Krist Novoselic e Courtney Love, mas o baterista do Nirvana aparece apenas em filmagens de época. Segundo o próprio diretor, a oportunidade de entrevistar Grohl apareceu só quando o filme já estava pronto. Morgen não descarta que algo da conversa possa entrar em um novo corte do filme. A ausência de Grohl é notada, embora fosse Novoselic o integrante da banda mais próximo de Cobain, mas não prejudica o conteúdo do filme. Um breve momento de Montage of Heck em uma checagem de som, inclusive, faz referência à picuinha entre Grohl e Love.

No que o espectador vai se envolvendo mais no mundo de Cobain e Love, o filme também vai ficando cada vez mais pesado e triste. As cenas dos recém-casados se agarrando e trocando beijos em close-up em filmagens caseiras com uma aparência de quem foi completamente sugado pela vida desregrada de uma celebridade causam desconforto. Kurt Cobain: Montage of Heck também é devastador por deixar o mundo inteiro entrar de maneira tão singular na vida de Cobain. No próprio filme, são várias as referências ao fato de o músico não suportar se sentir invadido ou humilhado. Quando você vê aquele menininho loirinho abanando e mandando beijos para a câmera enquanto come um biscoito, é inevitável se perguntar: o que Cobain acharia de ter sua vida escancarada de uma maneira tão intensa em um filme?

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Nota do Crítico
Ótimo