Quem nunca esbravejou “que mentira!” enquanto assistia alguma produção de ação ou suspense que atire a primeira pedra. Desde sempre, o cinema testa os limites de nossa capacidade de aceitar absurdos e Justiça Artificial não é muito diferente disso. Nessa história, encontramos uma realidade dominada pelo crime onde uma juíza de inteligência artificial, Maddox (Rebecca Ferguson), é a única responsável por separar culpados dos inocentes — e é aí que entra o nosso protagonista. Chris Raven (Chris Pratt), um detetive respeitado, é acusado de matar a esposa e precisa provar a própria inocência em 90 minutos — sim, ele não tem direito a um advogado.
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É com essas apostas irreais que o roteiro do inexperiente Marco van Belle joga o protagonista em uma corrida sufocante pela própria vida. Com uma premissa que ecoa Minority Report, mas sem a profundidade de Spielberg, vemos que o personagem de Pratt tem grandes chances de ser culpado; marido ruim, pai ruim, episódios de violência sob efeito de álcool e uma traição fazem a corda em seu pescoço se apertar cada vez mais. Esse xadrez coloca o personagem em xeque a cada rodada e mostra que o filme quer dar um passo maior do que pode.
Para escapar do julgamento da impiedosa robô, ele dispõe do acesso a todos os dispositivos eletrônicos e câmeras de segurança conectadas à internet. Nem mesmo os perfis privados de menores de idade são intocáveis para ele. Quando Chris desconhece a sua existência, a juíza então assume o papel de advogada e o avisa com uma tela holográfica na frente dele. Porém, assim que o personagem reúne uma pista de sua inocência, ela o desencoraja com uma frase robótica como “essa escolha não reduziu a sua pena”.
Não demora para a tensão gerada pelos diálogos de Pratt e Ferguson ficar cansativa — e vamos combinar? Essa não é nem de longe a melhor atuação da dupla. A sensação é de que eles receberam um roteiro que consideraram básico e responderam no mesmo tom. Para essa não ser a única sensação, o filme leva o espectador para fora do tribunal por meio de personagens secundários. Seja por amigos, testemunhas, câmeras de segurança, o filme nos deixa respirar enquanto continuamos ouvindo as conversas entre IA e acusado. E é nesse ponto que a história começa a valer a pena.
Sabendo que não tem profundidade suficiente para explorar as idiossincrasias de uma inteligência artificial superpoderosa, Justiça Artificial dobra a aposta no impensável e inicia uma sequência interminável de reviravoltas. A cada dois passos, vemos a direção da trama mudar para um caminho completamente diferente, com a trama partindo de um caso banal de feminicídio para uma perseguição quase digna de Missão Impossível, com ação de tirar o fôlego e tensão à flor da pele. Apesar de destoar do tom original da produção, esse é o ponto alto do filme e o que o torna interessante.
No fim, Justiça Artificial não acrescenta muito ao debate sobre IA, apenas explora os fatos atormentadores que acompanham a tecnologia, como monitoramento constante e o excesso de dependência de tecnologia para tarefas essencialmente humanas. Ainda assim, o longa-metragem de Timur Bekmambetov (Ben-Hur) conquista o público apaixonado por esses filmes de ação pipoca, que não exigem demais e valem o seu tempo. Afinal, precisamos de mais filmes assim… (ou não).