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Whisky | Crítica

<i>Whisky</i>

25.11.2004, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H17

Whisky
Whisky
, 2003
Uruguai/Argentina
Comédia - 95 min.

Direção e roteiro: Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll

Elenco:
Andrés Azos, Jorge Bolani, Ana Katz, Mirella Pascual

Em entrevista ao jornal francês Le Monde, Pablo Stoll, que co-dirigiu Whisky (2003) com Juan Pablo Rebella, disse que "o importante é o coração, o sentimento, a idéia, e não o virtuosismo técnico". O depoimento é coerente com seu filme, cujo principal diferencial técnico é a total ausência de planos seqüência. A câmera fica parada o tempo todo, fixa em um tripé, sem sequer um zoom in ou out durante os seus 100 minutos. Não importa se a diferença de altura entre Jacob (André Pazos) e Marta (Mirella Pascual) é de uns 30 cm. Os dois jovens cineastas não ligam de cortar um pedaço da cabeça de um ou mostrar a outra pela metade.

Para dar ritmo ao filme entra o bom trabalho do montador Fernando Epstein, que junto com a diretora de fotografia Bárbara Alvarez deu vida à idéia dos dois criadores. Rebella confirma que embora o plano não tivesse um propósito claro, era isso que eles queriam. "Hoje, quase um ano depois, após ter visto e revisto o filme finalizado, na minha opinião, os enquadramentos fazem parte dos aspectos mais satisfatórios. A imobilidade da câmera enriquece a narração", confessa Rebella.

O enredo é bastante simples e mostra que a rotina impera sobre as vidas de Jacob e Marta. Todos os dias, quando ele chega à fábrica de meias que herdou de seus pais ela já está lá, esperando. Entram juntos e enquanto Jacob liga as máquinas, ela se troca e vai preparar o chá para o chefe. Na hora de ir embora, Marta checa as bolsas das duas únicas funcionárias além dela e se despede: "até amanhã, se Deus quiser".

A chegada de Hermann (Jorge Bolani) quebra a previsibilidade deste dia-a-dia. Ele também tem uma fábrica de meias, no Brasil, onde vive há bastante tempo. As diferenças dos produtos dos dois irmãos é gritante e reflete suas personalidades. Hermann é mais alegre, vivo e moderno, como as meias que fabrica. O irmão mais novo de Jacob quase nunca volta a Montevidéu. Nem mesmo no funeral de sua mãe, ele compareceu. Sua visita coloca um pouco de cor à película, que até aquele momento era cinza, repetitiva e mostrava vidas tediosas.

Para não demonstrar que vive só e que as coisas não vão nada bem, Jacob chama Marta para agir como se fosse sua esposa enquanto Hermann estiver no Uruguai. Ela vai ao cabeleireiro, se arruma e dá um jeito na casa, escondendo os vestígios da longa e dolorida enfermidade da mãe dos dois irmãos. Os "recém-casados" combinam o local de sua lua-de-mel, colocam alianças e tiram uma foto. Antes de clicá-los, o fotógrafo pede para que "digam whisky". Assim vemos, pela primeira vez, um sorriso nos rostos dos dois. Um sorriso falso, de curtíssima duração, causado apenas pela fonética da palavra.

E é esta visível falsidade de sentimentos que torna o filme tão interessante. A dureza da vida entregue à família (Jacob), ao trabalho (Hermann), ou à falta de objetivos (Marta) deixa os personagens insensíveis, inertes ao ato de viver e, como mostra o filme, não há nada mais triste do que a solidão. Stoll confessa que "Whisky é a projeção do que pode acontecer daqui a trinta anos. A gente tem medo da solidão".

O cinema da dupla uruguaia vêm sendo bastante comparado aos de Aki Kaurismaki, principalmente pelos longos silêncios, que só são possíveis porque eles conseguiram juntar ótimos atores. Bolani, que nasceu em 1944, parece ser bem mais novo que o envelhecido Pazos, de 1945. E Mirella Pascual passa à sua personagem toda a humanidade que ela precisa para viver, mesmo que solitária e tristemente.

Whisky é apenas o segundo filme da dupla Stoll e Rebella. Os dois se conheceram na faculdade, quando cursavam Comunicação Social, viram que tinham muita coisa em comum e decidiram trabalhar juntos. A estréia no cinema aconteceu com 25 Watts (2001), filmado em 16 mm, que custou apenas 25 mil dólares e conseguiu certo sucesso nos festivais de que participou. Com um orçamento estimado de 500 mil dólares eles fizeram Whisky, que ganhou o prêmio na mostra Un certain regard no Festival de Cannes deste ano e alguns Kikitos em Gramado, entre outros troféus mundo afora. Prêmios merecidos, afinal, estamos falando de um bom Whisky, que não deixa ninguém com dores de cabeça no dia seguinte.

Nota do Crítico
Bom