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Robôs | Crítica

<i>Robôs</i>

17.03.2005, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H17

Robôs
Robots
EUA,
2005
Animação - 91 min.

Direção: Chris Wedge, Carlos Saldanha (co-director)
Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel

Vozes no original: Ewan McGregor, Halle Berry, Mel Brooks, Stanley Tucci, Dianne Wiest, Drew Carey, Jim Broadbent, Amanda Bynes, Jamie Kennedy, Paul Giamatti, D.L. Hughley, Jennifer Coolidge

Quando dirigiram A era do gelo (2002), Chris Wedge e o brasileiro Carlos Saldanha tiveram que maneirar nos pincéis. Afinal, o Pleistoceno, período quaternário do Cenozóico, não era exatamente um tempo de muita poluição visual, se é que você me entende. Portanto, nada melhor para aplacar essa sede de imaginação do que situar o projeto seguinte, Robôs (Robots, 2005), no futuro. E acredite, a dupla forra todo fotograma com o máximo de formas, cores e informações possíveis.

A excelência estética do longa e o frenesi das cenas de ação compensam as obviedades do roteiro. Rodney Lataria (voz de Ewan McGregor no original e Reynaldo Gianecchini em português) cresceu numa cidadezinha de interior. Filho de um lavador de pratos, só conseguia peças de segunda mão para as suas "atualizações de idade". O jovem Rodney sonhava conhecer Robópolis, a terra das oportunidades onde o inventor Grande Soldador (Mel Brooks), ídolo de todos, dizia que "todo robô pode brilhar, não importa do que seja feito".

Sozinho na metrópole, Rodney percebe que não é bem assim. Dom Aço (Greg Kinnear) aposentou Grande Soldador do comando da empresa e agora lidera uma renovação no mercado. Peças de reposição não serão mais fabricadas, só produto de primeira linha. Quando o herói descobre que a maioria dos robôs não tem como sobreviver à reciclagem, inclusive o seu pai, decide enfrentar Dom Aço em nome dos ideais do velho Soldador.

Reveste-se de crítica ao consumismo, assim, a clássica história do Bem contra o Mal, da pureza interiorana contra a selvageria da cidade, da maioria negligenciada contra a minoria corporativa. Cientes de que essa trama batida ainda rende bom caldo, Wedge e Saldanha não se acanham em acrescentá-la de arquétipos: o herói esguio com o seu par romântico, o gordinho desengonçado e, claro, o tagarela do alívio cômico - cuja dublagem eficiente de Robin Williams tende a se perder por aqui.

A utilização desse formato edificante, mais fácil de compreender, se legitima na medida em que Robôs é um desenho feito para crianças, de verdade, numa indústria que tem medo de se assumir juvenil. Os pequenos devem aproveitar o desbunde visual em sua plenitude frenética e, por tabela, tirar boas lições. E Madame Junta (ótima voz de Jim Broadbent), a malvada mamãe de Dom Aço, tem tudo para se imortalizar como uma legítima bruxa malvada de fábula infantil.

Resta aos maiores se divertirem com paródias de O Senhor dos Anéis e Star Wars. Mas a idéia principal não é essa, definitivamente. Quando tenta soar adulto, Robôs esbarra no anacrônico (a referência a Cantando na Chuva sequer rende versos decentes) e no desgastado (se zoar Britney Spears já não funciona tanto, imagine então fazer piada com flatulência).

Daria até para questionar a hipocrisia - como uma animação anticonsumo pode se desdobrar tão descaradamente em produtos de massa que vão de álbuns de figurinhas a jogo-da-memória? - mas isso já outra história...

Nota do Crítico
Ótimo