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Provocação | Crítica

<i>Provocação</i>

28.07.2005, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H18

Provocação
The door in the floor
EUA - 2004 -111 min
Drama

Direção: Tod Williams
Roteiro: Tod Williams, baseado em livro de John Irving

Elenco:
Elle Fanning, Jeff Bridges, Kim Basinger, Jon Foster, Larry Pine, John Rothman, Harvey Loomis, Bijou Phillips, Mimi Rogers, Louis Arcella, Tod Harrison Williams, Carter Williams, Mike S. Ryan

A sinopse de Provocação (The door in the floor) sugere um drama tipo Supercine. Marido e mulher vêem seu casamento ruir depois da morte trágica dos filhos, trauma que a mãe lembra diariamente por meio das fotografias espalhadas por toda a casa. Ressentimento, angústia... Ela vive numa quase catatonia. Ele a trai sem remorso. Tem tudo para ser uma desgraceira, não é mesmo? Mas não é o caso.

Por dois motivos. Primeiro, a história se baseia em um livro de John Irving, A Widow for One Year (Viúva por um ano), de 1998. Irving, autor de Regras da Vida (que virou filme de Lasse Halström em 1999), sabe criar dramas sem recorrer ao sentimentalismo. Pelo contrário, as cargas de crueldade e cinismo nas situações que monta geralmente são antiemotivas. Segundo, pela interpretação que Jeff Bridges (indicado ao Independent Spirit Awards) faz do papel do marido, Ted Cole.

Ted surge como o escroto clássico. Escritor premiado e egocêntrico de livros infantis, ele dá ao estudante Eddie (Jon Foster) a chance de ser seu revisor e datilógrafo durante o verão. Eddie, claro, se deslumbra com a oportunidade. O problema é que os livros ilustrados de Ted nunca têm mais que quinhentas palavras. É preciso pensar e repensar cada uma delas, diz ao entregar para Eddie a revisão do dia, com uma única vírgula de diferença para o dia anterior, antes de sair para tomar vinho pelado na varanda, caminhar na praia, jogar squash, visitar uma amiga...

Logo fica claro que ele não foi chamado só para ajudar com os livros. Ted também quer que ele seja seu motorista e, mais importante, faça companhia à sua desolada esposa, Marion (Kim Basinger). Claro que Eddie - virgem de tudo - se apaixona pela mulher, envelhecida pelo choro mas de uma beleza inapagável. Uma Kim Basinger que o roteirista e diretor Tod Williams filma de frente e de corpo inteiro, com veneração, ciente de que ela envelhece com bastante dignidade. E Marion encontra no rapaz um consolo.

Está montado aí um triângulo amoroso que tem muito mais cara de escaleno do que equilátero. Isso porque Ted parece não se enciumar muito e porque Marion usa o rapaz como escape, sem deixar de chorar os filhos mortos. Eddie, ainda puro, na sua historinha de formação de caráter, parece ser o único a alimentar certo romantismo. Mas diante de tanta amargura, é também um romantismo que não durará muito.

Ainda que a relação dos dois esteja em primeiro plano, a grande sacada de Provocação é o que Irving esconde sobre Ted. Aquela imagem primeira de cretinice, sem dúvida, só se reafirma ao longo do filme - e acarreta um castigo merecido ao escritor. Acontece que Ted não é só isso. Ele, a seu modo, também tem (res)sentimentos. Ele não despreza a esposa como aparenta, assim como também não despreza Eddie. E a porta no chão do título original, nome tirado de um dos livrinhos infantis de Ted, surge na cena final para sugerir que talvez ele também sofra, mas de um jeito diferente.

Nota do Crítico
Bom