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Cazuza - O Tempo Não Pára | Crítica

<i>Cazuza - O tempo não pára</i>

10.06.2004, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H16

Cazuza - O tempo não pára
Brasil, 2004
Drama - 90 min.

Direção: Sandra Werneck e
Walter Carvalho
Roteiro: Fernando Bonassi e
Victor Navas

Elenco: Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Andréa Beltrão, Leandra Leal, Emílio de Mello, Cadu Favero, André Gonçalves, Arlindo Lopes, Dudu Azevedo, André Pfefer, Eduardo Pires, Maria Flor, Fernanda Boechat, Pierre Santos, Victor Hugo, Maria Mariana, Débora Falabella

Em 1980, do alto dos meus cinco anos, não dei qualquer atenção ao surgimento do Cazuza. Tampouco me importei em 1985, já com sábias dez primaveras, quando ele tocou ao lado do Barão Vermelho no primeiro Rock in Rio. Marcante mesmo só o final dos anos 80, quando o astro anunciou que estava com AIDS. O terror estava na TV, e eu só podia ficar com raiva de seu "arauto", afinal, com 15 anos e prestes a começar minha vida sexual, só conseguia enxergar que as orgias que via nas revistinhas pornôs não aconteceriam comigo, pois agora "sexo mata".

Cazuza foi um dos primeiros grandes astros nacionais a assumir sua doença, numa época em que o preconceito era algo assustador. Revelar-se portador do HIV era assinar um atestado de promiscuidade. Até as roupas desses novos párias deviam ser separadas, segundo a ignorância da época. Assim, Cazuza ficou marcado para sempre na minha memória como alguém extremamente negativo, fruto, sem sombra de dúvida, da mídia e da sociedade daqueles dias. Infelizmente, acho que isso está tão arraigado em mim que não consigo gostar do sujeito nem mesmo agora. Lembranças ruins acompanhadas da música do "Fantástico", sabe como é... o momento era cruel demais.

Dito isso, fico feliz que tenha sido produzido o filme Cazuza - O tempo não pára. Foi com surpresa que percebi, ao final da projeção, que apesar de nunca ter comprado um único disco eu conhecia cada uma das suas canções na íntegra. É impressionante. Todo mundo conhece as músicas do Cazuza, prova de que ele foi um dos maiores letristas que o Brasil já teve.

Mas se o tema é forte, a produção não é assim tão sólida. Há bons momentos, geralmente atrelados à interpretação de Marieta Severo como a mãe superprotetora de Cazuza. Já o protagonista, interpretado pelo estreante Daniel de Oliveira, que faz um excelente trabalho - principalmente cantando e dançando -, é prejudicado pelo roteiro. Seu personagem no filme tem o irritante hábito de falar como uma espécie de sábio pop, sempre através de frases prontas com ensinamentos malandros. Parece que ele vive em uma dimensão iluminada, algo que poderia ser interessante para o conceito do filme, mas que se transforma em pura chatice depois de alguns minutos de repetição.

Outro ponto negativo são os shows. Os diretores Sandra Werneck e Walter Carvalho foram infelizes na recriação dos grandes concertos do artista. O figurino New Wave está otimo, a iluminação e ambientação idem, mas a cena-chave do Rock in Rio não funciona. Cenas de arquivo alternam-se com imagens de Daniel de Oliveira com um contraste chocante de textura e granulação que parece gritar a cada quadro "lembre-se, você está vendo um filme".

Fora isso, o filme não se compromete. É uma cinebiografia típica, veículo para as músicas do artista. Começa já na adolescência do rebelde Cazuza, mostra o primeiro ensaio com o Barão Vermelho, a amizade de altos e baixos com o guitarrista Frejat (Cadu Fávero), a sexualidade sem freios, o consumo exagerado de drogas e o sucesso de público. Claro que também trata da doença, do desespero do diagnóstico e da coragem da revelação pública de sua condição. Tudo isso de forma meio apressada, um tanto desencontrada - como a própria vida do biografado, é verdade -, mas sempre ao som das músicas do artista, como "Preciso dizer que te amo", "Bete Balanço", "Maior abandonado", "Pro dia nascer feliz", "O Tempo Não Pára" e "Exagerado".

Enfim, apesar dos defeitos, a produção serve seu propósito e tira um pouco dessa aura negativa comentada no início desse texto. Com um pouco de sorte, pode apresentá-lo para a geração que idolatra Renato Russo como o maior - e absoluto - poeta da música nacional recente, artista que teve fases parecidas e o mesmo fim de Cazuza, mas que morreu em um segundo momento da doença, quando a compaixão era a palavra de ordem...

Nota do Crítico
Bom