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Heleno | Crítica

Biografia do ícone do Botafogo é uma tragédia sem possibilidade de redenção

29.03.2012, às 18H59.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H39

"Todo jogador deveria ver ópera antes de entrar em campo", brada Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro) contra os demais jogadores do Botafogo. Cobrar raça e emoção já era, nos anos 1940, comum entre craques de futebol que carregavam seus times nas costas, mas o fato de Heleno falar em ópera, entre a grandiloquência e o esnobismo, diz muito sobre sua figura, como retratada no filme Heleno.

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Formado em Direito, com cara de galã de cinema, Heleno não é um dos cabeças de bagre, nas suas palavras, que povoam o esporte. Circula de conversível pelas praias do Rio, canta no rádio em um inglês impecável. Na sua escolha de cenários, o filme faz uma distinção que é gritante: de um lado, os bailes black-tie que Heleno frequenta no Copacabana Palace; do outro, o treino do Botafogo, com o cachorro amuleto do clube presente na arquibancada e o bode, aparador de grama, amarrado na grade.

Rapidamente fica claro que o Heleno do filme, embora grite sua paixão pela camisa, está alheio às coisas prosaicas do futebol - um esporte popularizado no país, em boa medida, justamente por seus prosaísmos. Se fica a impressão de que falta futebol em Heleno (um comentário que já ouvi mais de uma vez de quem também assistiu ao filme), talvez essa sensação venha do fato de o personagem tratar o esporte como um meio, não um fim, de conservar seu sucesso.

É um pouco por essa falta de um propósito elevado - quando Heleno cria pra si uma imagem grandiloquente, o que se espera dele é um propósito à altura - que a vida de Heleno soa tão vazia no filme. O constante vaivém temporal reforça isso; a cada excesso do jogador na juventude, o roteiro corta para o futuro, com Heleno demente de sífilis no sanatório onde passou seus últimos dias. É uma relação imediata de causa e efeito que, em si, não precisaria existir (ser bad boy não mata ninguém), mas que o filme intensifica para demarcar a tragédia.

O que provoca um curto-circuito em Heleno, já que o roteiro cheio de elipses de Felipe Bragança, Fernando Castets e José Henrique Fonseca evita forçar causalidades durante a juventude do jogador. Paira ao fundo o vulto materno (Heleno telefona frequentemente à mãe, que nunca aparece em cena), mas o filme usa isso apenas sutilmente para justificar-lhe o comportamento mulherengo. Assim, sobra ao espectador trabalhar com a relação causa-efeito mais ostensivamente oferecida, que são os saltos temporais vinculando a boa-vida à doença.

Que Heleno de Freitas é uma figura trágica - como outros ícones efêmeros do Botafogo, só conseguiu ser campeão defendendo outro time - não há dúvida. O problema de Heleno, ao tornar patologia os excessos do jogador, é que isso tira do personagem sua única glória: jogar não pelo prazer de jogar, mas pelo prazer narcisista de reafirmar seu gênio ante os demais.

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Nota do Crítico
Regular