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Crítica

Guardiões da Galáxia Vol.2 | Crítica

Despretensiosa, sequência foca na relação entre os personagens e brinca com as possibilidades do Universo Cósmico da Marvel

24.04.2017, às 00H00.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H39

Todo filme é uma aposta, mas na corrida das bilheterias algumas são mais audaciosas que outras. Guardiões da Galáxia (2014) foi o primeiro grande risco assumido pela Marvel desde Homem de Ferro, que catapultou o estúdio em 2008. A Terra de heróis consagrados dava lugar a um espaço colorido, habitado por personagens do segundo (ou terceiro) escalão da Casa das Ideias, incluindo um guaxinim altamente armado e uma pouco eloquente árvore falante. Como bom azarão, o filme terminou sua passagem pelos cinemas como a quinta maior arrecadação do Universo Cinematográfico da Marvel (atrás dos dois Vingadores, Homem de Ferro 3 e Guerra Civil).

Vencida a primeira aposta, Guardiões da Galáxia Vol.2 chega despretensiosamente à fase três do MCU. A preocupação de James Gunn na sequência é apenas desenvolver seus personagens, sem conexões grandiosas com os eventos que levarão à Guerra Infinita. O objetivo é conhecer melhor a família formada no primeiro longa enquanto brinca com novas possibilidades dentro do Universo Cósmico. Tudo permeado pelo senso de humor peculiar do diretor/roteirista. Uma assinatura que mistura cor, trash, sentimentalismo e besteirol frenético.

A despretensão de Gunn, porém, não deve ser tomada como falta de método. O roteiro, ainda que surreal para os menos versados nos caminhos do sci-fi, é calculadamente estruturado como uma reação em cadeia. Assim como no primeiro filme, cada ato tem sua consequência, movimenta a trama e adiciona camadas aos personagens. Nada é gratuito. Nem a trilha sonora, escolhida durante a criação do script, nem as piadas - mesmo as mais bobas têm sua serventia para a história.

O mesmo vale para o visual de personagens, cenários e objetos de cena. O trono dourado de Ayesha, alta sacerdotisa dos engenheiros genéticos Sovereign, se mistura à sua vestimenta como prova da sua superioridade e realeza infinita. As linhas da nave de Ego, o Planeta Vivo, evocam Flash Gordon e Barbarella para situar o personagem como um ser de outros tempos. O traço geral é caricato e de cores gritantes, como se fosse transferido diretamente de um gibi impresso nas décadas de 60 e 70. A sensação é de virar a página a cada nova cena.

O acerto na escolha do elenco que habita esse universo é a cola que faz de Guardiões da Galáxia uma peça diferente no quebra-cabeça do Marvel Studios. O time veterano - Chris Pratt (Peter Quill/Senhor das Estrelas), Zoe Saldana (Gamora), Dave Bautista (Drax), Karen Gillan (Nebula), Michael Rooker (Yondu) e os dubladores Bradley Cooper (Rocket) e Vin Diesel (Groot) - retorna integrado e sincronizado, seja na ação, no humor ou no drama. Os novatos, porém, são os responsáveis pelas doses de surpresa do filme. Kurt Russell facilmente coloca Ego na sua galeria de personagens marcantes, enquanto a franco-canadense Pom Klementieff faz uma estreia certeira como Mantis, aproveitando cada interação com Drax (menos destruidor, mais piadista). Elizabeth Debicki apodera-se de todos os minutos em tela como a fria Ayesha, enquanto Stan Lee faz uma de suas melhores participações especiais e Sylvester Stallone (Stakar Ogord) entra para o Universo Marvel como se já estivesse lá há anos.

O grande mérito de Guardiões da Galáxia Vol. 2 é fazer tamanho esforço parecer uma brincadeira. São 2h17min que passam voando entre piadas, participações especiais, referências à cultura pop, easter eggs, coloridas batalhas espaciais, músicas cativantes, armas gigantes e dramas universais (o pai ausente, a irmã competitiva, o filho rebelde que só quer ser amado e as incertezas de uma família recém-formada). Gunn aproveita a cumplicidade criada por seus heróis “esquisitos” para fazer uma aventura grandiosa e imperfeita, sem vergonha de ser o que é. Uma conexão que permanece até o último segundo das múltiplas cenas pós-créditos, não apenas pela ansiedade de saber um pouco mais sobre o próximo filme da Marvel, mas por estender o tempo passado naquele universo perfeitamente desalinhado.

Nota do Crítico
Ótimo