Não acho que estou dando uma opinião controversa ao dizer que Angel Manuel Soto é, de fato, um bom diretor. O porto-riquenho, que passou uma década fazendo curtas antes de ganhar notoriedade com Twelve (2020) e ser recrutado por Hollywood para Besouro Azul (2023), tem câmera dinâmica e inventiva, impulso criativo comendável que o leva a brincar com luzes e cores em sequências que poderiam ser protocolares, e tende a encenar seus filmes de maneira bem mais “soltinha” do que muitos de seus contemporâneos.
Ele traz tudo isso para Dupla Perigosa – e, em alguns momentos, os talentos dele se alinham a um elenco inegavelmente carismático para gerar um filme que se prova passatempo mais do que aceitável, especialmente para os parâmetros dos filmes originais de streaming. Mas aí, é claro, os seus personagens precisam abrir a boca.
Para ser totalmente justo: as coisas que eles falam, ao que tudo indica, não vieram da cabeça de Soto. O roteiro de Dupla Perigosa é assinado por Jonathan Tropper, que trabalhou com o astro do filme, Jason Momoa, na série See, e também escreveu o esquecível Projeto Adam para a Netflix. É dele, portanto, a culpa pela conspiração atribulada e sem sentido que os dois protagonistas vão desvendando, assim como as piadas mal-passadas disfarçadas de humor nessa comédia de ação.
Aqui, James Hale (Dave Bautista) e Johnny Hale (Momoa) são irmãos de temperamentos opostos, que se reúnem pela primeira vez em décadas no Havaí após a morte do pai, um detetive particular que – eles logo descobrem – estava investigando o ricaço Robichaux (Claes Bang) e seus apoiadores da Yakuza, autores de um plano nefasto para roubar terras ancestrais de tribos havaianas. Adicione nesta receita uma reviravolta que é possível ver chegando há quilômetros de distância (nos primeiros 10 minutos de filme, se você prestar atenção), e você tem uma trama que pouco foge do marasmo.
A única ideia consistente que o longa tem para quebrar esse clima, infelizmente, é usar o humor. E, quando eu digo humor, quero dizer qualquer coisa juvenil que passe pela cabeça de Jason Momoa enquanto ele chuta bundas e tenta desenvolver algum tipo de harmonia cênica com Dave Bautista (que, salvo um ou dois gracejos, está mais concentrado em construir um personagem do que em entrar na brincadeira). O quanto do que sai da boca de Momoa durante o filme é invenção do próprio ator, e o quanto estava no roteiro de Tropper, nunca vamos saber – até porque dificilmente alguém vai se importar o bastante para descobrir.
Os melhores respiros de Dupla Perigosa, enquanto isso, são as cenas de ação (ou boa parte delas, pelo menos). Especialmente ali no miolo do filme, o diretor Soto, seu montador Michael McCuster (Logan) e sua equipe de dublês para lá de capaz demonstram senso de espetáculo, talento para traduzir movimento e impacto físico em tela, e uma mão cheia de boas ideias visuais. Dupla Perigosa entretém na adrenalina porque nunca repete um truque: em um momento, acompanhamos Momoa despachando capangas da Yakuza em take único na sua sala de estar; no outro, Morena Baccarin está sendo perseguida por um helicóptero enquanto dirige uma van – uma cena que não economiza explosões nem cortes.
Talvez já fosse o bastante para sustentar a atenção de um público distraído pelos seus celulares, mas Dupla Perigosa também decide jogar esse trabalho no lixo quando chega ao seu clímax, um confronto/operação de resgate entre os irmãos e Robichaux na mansão do vilão. Ao contrário do que propôs no restante do longa, aqui Soto se rende à baixa iluminação, à montagem confusa, ao impacto barato da violência… a tudo, enfim, que define o cinema de ação pressão baixa que virou o arroz-e-feijão do streaming. Uma decepção que acaba tendo gosto ainda mais amargo porque nos prometeu, por um instante, que poderia ser algo diferente.