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Django Livre | Crítica

Quentin Tarantino não economiza munição, em um dos seus filmes mais instáveis e, ao mesmo tempo, mais prazerosos

07.01.2013, às 18H14.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H36

Entre as participações especiais em Django Livre (Django Unchained), aparece, com uma bandana no rosto, a dublê Zoë Bell. Ela olha por um daqueles binóculos de plástico com fotografias dentro, vê uma foto (bastante improvável...) do que parecem ser caubóis diante do Partenon. Quentin Tarantino sabe que o faroeste hollywoodiano é responsável por criar toda a mítica americana, mas o diretor não se contenta: ele cita até a Grécia Antiga. É como se a formação de toda a nossa civilização passasse pelo cinema do século 20.

Django Livre

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É de formação, afinal, que trata o conjunto da obra de Tarantino, cuja dedicação cinefílica muita gente ainda confunde com pastiche. Se o cineasta diz em entrevistas que não quer envelhecer fazendo cinema, é porque essa sua dedicação é essencialmente uma vocação de jovens e sonhadores: investigar os gêneros, vê-los como os formadores do mundo à nossa volta, seja num filme de Segunda Guerra, de artes marciais ou, como agora, em um faroeste revisionista mezzo Sérgio Leone mezzo blaxploitation. Se Tarantino prefere histórias de vingança, talvez seja porque a vingança devolve ao mundo a sua forma, a sua ordem.

É por amor, mas também por vingança, que o escravo liberto Django (Jamie Foxx) acompanha um caçador de recompensas alemão, Dr. Schultz (Christoph Waltz), pelo Texas e pelo Mississippi atrás da sua esposa (Kerry Williams), escrava do fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Em 1858, os Estados Unidos estão às vésperas da Guerra Civil, mas, de novo, Tarantino vai mais ao passado, a mitos mais antigos: o nome da esposa é Brunhilda, em homenagem à valquíria da mitologia nórdica do século 13 que é resgatada do fogo por seu amado Siegfried.

A cena em que Schultz, ao lado da fogueira, conta a saga da valquíria para Django é emblemática. O alemão fica de pé diante de uma rocha (igual, não por acaso, àquelas que aparecem no plano inicial do filme) e move as mãos no ar como se estivesse prestes a registrar a história na pedra. Pronto. A regressão está completa. Django Livre nos lembra por um instante da alvorada da linguagem do homem (sombras projetadas? pinturas rupestres?) - e a partir dessa cena é que o destino de Django e Schultz se define.

De todos os muitos prazeres catárticos de violência e humor que em 2 horas e 45 minutos este divertido filme proporciona - Django Livre já me ganhou logo no começo, na hora em que Waltz bota o pezinho na frente para executar um bandido como se fosse um duelista da corte francesa - nenhum é maior do que ver Tarantino e seu ótimo elenco tentando, sem medo, entre altos e baixos, encontrar uma linguagem visual e verbal que dê conta da recriação desse complexo mundo. A câmera é ora contemplativa (pastos, montanhas, pôr-do-sol), ora "spaghettiana" (os zooms forçados), dois extremos do western. A trilha vai de Delta blues a soul e hip hop, por vezes apressadamente, porque esses são os gêneros formadores da cultura negra. Os diálogos não economizam nos sotaques e nos palavrões porque são, também, um esforço de linguagem - e, como todo esforço, estão passíveis a excessos.

Com isso, no fim, Django Livre está longe de ser um filme preciso e perfeitamente estruturado como Bastardos Inglórios, mas sua disposição de arriscar tudo na ambiciosa criação de uma mítica que faça justiça ao faroeste, o maior de todos os gêneros, compensa qualquer tiro perdido.

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Nota do Crítico
Ótimo