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Crítica

A Dama de Ferro | Crítica

Filme não acompanha a qualidade da atuação de Merryl Streep

16.02.2012, às 21H54.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H35

Meryl Streep merece todos os elogios e prêmios que recebe por três motivos básicos: a qualidade de sua atuação, a entrega aos personagens e também pela sua capacidade de escolher os papéis que vai interpretar. Sem dar aquela olhadinha no imdb, tudo o que vem à mente são seus filmes bons, as performances que se destacam e lhe renderam cada uma das 17 indicações ao Oscar - recorde absoluto. A Dama de Ferro (The Iron Lady) é mais um destes projetos.

A Dama de Ferro

A Dama de Ferro

A Dama de Ferro

A Dama de Ferro

Mas, a exemplo do que aconteceu com Marion Coutillard quando encarnou Edith Piaf, a Margareth Thatcher de Streep é a única coisa que realmente se destaca no longa. Tanto a parte histórica quanto a política ficam em segundo plano na trama do filme, que prefere martelar a doença e a solidão da ex-premiê britânica, que comandou o país com "mão de ferro" por mais de uma década e está lá, ainda viva, em Londres.

A famosa greve dos mineiros britânicos, um dos divisores de água do governo Thatcher, é melhor explicada em Billy Elliot do que aqui e é apresentada totalmente fora de cronologia. No filme, Thatcher primeiro é quase linchada pelas greves e seus cortes orçamentários, para então ser ovacionada pelo povo quando as tropas britânicas voltam vitoriosas da Guerra das Malvinas (que aconteceru dois anos antes) para, em seguida, aparecer ao lado de grandes líderes políticos em papel de destaque. O longa dá a entender que a batalha em terras sul-americans fez o povo esquecer todas as suas medidas autoritárias que afetaram as vidas de milhões de pessoas e a catapulteou ao mais alto degrau da política mundial - e não foi bem isso.

Mesmo assim, sobram momentos para Streep brilhar. A primeira cena, com a ex-primeira ministra em uma lojinha de conveniência, é sem dúvida uma das melhores do filme justamente porque dá uma visão macro do cenário sem se preocupar em focar apenas na personagem principal. Mostra ao mesmo tempo a fragilidade em que a protagonista se encontra, a falta de caráter da sociedade atual e a sua indignação de viver nestes dias. Mas infelizmente não dá para parar por aí e começam os flashbacks que vão mostrar a vida pregressa da biografada, desde o tempo em que Margareth (interpretada em sua versão mais jovem por Alexandra Roach) passou de filha de um pequeno comerciante do interior a mulher mais poderosa dos anos 1980.

No papel, A Dama de Ferro poderia ser O Discurso do Rei deste ano - tem até mesmo um treinamento vocal -, mas o roteiro se perde mais do que a protagonista que eles quiseram inventar, uma senhora doente, que sofre com o Alzheimer e tem alucinações com o marido morto há muitos anos. Sem este ritmo, as três épocas diferentes vão se alternando sem conseguir empolgar de verdade e criar com o público a empatia necessária para que nos preocupemos com a personagem. A superação, o clímax aparecem lá no meio, deixando para o terceiro ato a decadência política e o seu estado de saúde, sem o desfecho digno para uma pessoa que rompeu barreiras ao entrar em um mundo controlado por homens e se manteve firme ao tomar decisões polêmicas - o que a tornou uma figura política ora idolatrada, ora odiada.

Os altos e baixos do soluçante roteiro, a direção apenas regular e a insistência pelos desvairios de Margareth com seu marido (Jim Broadbent) serviriam para afundar qualquer outro projeto. Mas contra tudo o que não funcionou entra em cena a irreconhecível Meryl Streep, toda envelhecida e escondida atrás da prótese dentária, uma irretocável peruca enlaquezada e um tom de voz quase Julia Child para salvar o dia. Ainda hoje, Thatcher está longe de ser uma unanimidade, enquanto a onda de elogios à atriz que a interpretou parece estar longe de acabar.

Nota do Crítico
Bom