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Crítica

Crítica: X-Men Origens: Wolverine

Filme é exemplo da arte perdida do diálogo

27.04.2009, às 16H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H47

A franquia X-Men no cinema começou bem. Sob o comando de Bryan Singer, um cineasta bem acima da média, ela deu aos filmes baseados nas histórias em quadrinhos o fôlego que precisavam para frutificar - culminando em um dos gêneros mais lucrativos da história recente do cinema. O terceiro longa, porém, X-Men: O Confronto Final, dividiu opiniões e pediu um caminho diferente para as continuações.

X-Men Origens: Wolverine

X-Men Origens: Wolverine

X-Men Origens: Wolverine

A solução encontrada pelo estúdio foi criar filmes solo de personagens. O primeiro deles é X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine), aventura que retoma a série contando a história do mutante mais popular do grupo. Infelizmente, trata-se do pior exemplar da tetralogia e o roteiro de David Benioff (Tróia) e Skip Woods (Hitman) é um exemplar perfeito da arte perdida do diálogo: metade dos confrontos do filme poderiam ter sido evitados se os personagens simplesmente se dessem ao trabalho de trocar algumas palavras antes de cair na pancada.

A primeira cena é prova incontestável disso. Uma equipe de supercaras do governo invade uma instalação africana clandestina onde se negociam diamantes. Uma centena de corpos e explosões depois, o líder da equipe, William Stryker (Danny Huston), pede que o chefão mafioso africano entregue seu... peso de papel. Sim, um peso de papel. Será que não dava para oferecer 10 reais pro cara pela pedra antes de gastar milhões de dólares em uma força invasora?

Essa incapacidade de dialogar segue tresloucada por toda a projeção. Todos os encontros de Logan/Wolverine (Hugh Jackman, pela quarta vez) com seus antagonistas ou futuros aliados começam com um quebra-pau e terminam com uma aliança ou as informações extraídas. Esse é um dos piores vícios dos quadrinhos de super-heróis, mais especificamente o dos encontros de personagens de universos distintos. No mundo das HQs, personagens batem primeiro e perguntam depois. E não adianta argumentar que Wolverine é assim nos quadrinhos, pois sua construção no cinema tem muito pouco do "carcaju enfurecido" dos primórdios das aventuras impressas dos X-Men.

X-Men Origens: Wolverine é assim um filme que parece saído do fim dos anos 1990, quando Hollywood ainda não havia percebido que efeitos especiais sozinhos não sustentam filme nenhum. Que quando o público se acostuma com eles começa a olhar para outras coisas, como história e personagens. Mas não consigo deixar de pensar que o diretor Gavin Hood talvez não seja o "culpado" pelos erros do filme. Ele é um cineasta de pouca expressão (ainda que tenha um Oscar de filme estrangeiro) - e certamente foi contratado pelo estúdio por ser um talentoso novato naquele meio, portanto, mais maleável aos seus desejos. Vale lembrar que no começo do ano foi muito alardeado que a 20th Century Fox realizou refilmagens por não ter gostado do longa que Hood entregou e dá pra arriscar quais pedaços foram criados por ele e quais têm o dedo dos produtores.

A primeira metade do filme flui bem. A origem de Wolverine e Dentes de Sabre (Liev Schreiber, muito bom) é bem contada e as recriações de épocas distintas empolgam na sequência pré-créditos. Ainda que discutível, a sequência de ação inicial é pelo menos bem coreografada e divertida. O embate de Logan com o Agente Zero (Daniel Henney) é outro bom momento. Mas daí em diante, especialmente no ato final, a coisa muda. Personagens demais em cena - desesperadamente buscando novos capítulos para a franquia, alguns absurdamente desnecessários, repetem os erros do terceiro X-Men, quando o volume de focos acaba numa autossabotagem da trama. Pra completar, a pirotecnia fala mais alto que as vozes dos personagens - e quando isso acontece, só nos resta cobrir os ouvidos pra escapar da barulheira.

Nota do Crítico
Regular