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Crítica: Tudo Acontece em Elizabethtown

Tudo acontece em Elizabethtown

03.11.2005, às 00H00.
Atualizada em 01.11.2016, ÀS 12H59

A América anda precisando de colo. O diretor Cameron Crowe oferece o seu no edificante Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown, 2005).

Tudo Acontece em Elizabethtown

Tudo Acontece em Elizabethtown

Meio termo entre a leveza de Quase Famosos e a presunção de Vanilla Sky, seus dois trabalhos anteriores, a comédia romântica conta não a história, mas a tragédia pessoal de Drew Baylor (Orlando Bloom). Desenhista de produção de tênis esportivos, ele passou oito anos criando um modelo em forma de arraia que, uma vez nas prateleiras, se tornou um marco do fracasso na indústria de calçados. A multinacional perdeu quase 1 bilhão de dólares por causa da criatividade de Drew.

Ele não repensa duas vezes a decisão de se matar, com requintes de masoquismo. Mas na hora H sua irmã lhe telefona. Daí já se percebe que é um filme do ex-crítico musical Crowe: o ringtone do suicida (I can tuuuurn a grey sky bluuuuue...) é a suingada "I cant get next to you", do Temptations. O refrão é irresistível. Drew atende o celular e descobre que terá que adiar o encontro com a morte porque seu pai faleceu.

Começa aí uma jornada de perdão, redenção, paixão, todos os ãos possíveis, mais um pouco da descoberta da beleza que é viver cada dia como se fosse o último. O nirvana de Drew é Elizabethtown, cidade-natal de seu pai, local que existe de verdade, no interior do Estado caipira de Kentucky. Drew deixa o sonho liberal, californiano, do self-made man para trás, troca-o pelo aconchego da América Profunda e das bandeiras hasteadas no jardim. Não é difícil entender onde Crowe quer chegar e, mais importante, com quem tenta falar.

Na exibição para a imprensa ocorreu fato inusitado. A distribuidora exibiu um vídeo prévio em que o próprio diretor introduz o filme, explicando a ligação emotiva entre ele e a obra, pois ele próprio é de Kentucky e seu pai havia falecido recentemente. O fato de Crowe se justificar, explicar o trabalho, dar idéias de como Elizabethtown poderia ser interpretado, é bastante sintomático da relação que o filme tem com o espectador: pegar pela mão, palestrar lições de vida, indicar caminhos, não esquecer a 60B, não esquecer a 60B, não esquecer a 60B.

Seria fácil enxergar um pouco de Cameron em Drew, mas o verdadeiro alter-ego do diretor em cena é a comissária de bordo Claire, interpretada por Kirsten Dunst. Contribui para a atitude passiva de Drew o fato de Orlando Bloom ser muito fotogênico e um péssimo ator. É Kirsten quem toma conta do fime. É ela quem pega o suicida fracassado pela mão (como o diretor faz com o espactador), é ela quem lhe diz que músicas tocar em determinados trechos da estrada (como Crowe se habituou a fazer, inserir trilha sonora em toda e qualquer situação de reflexão). Claire é a caridosa Amélie Poulain da América - ajudando os necessitados sem pedir licença.

Nota do Crítico
Bom