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Crítica

Crítica: Centurião

Neil Marshall se mantém fiel ao filme "B" mesmo diante de um gênero "A" como o épico histórico

25.11.2010, às 17H43.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 14H11

Os épicos históricos tradicionalmente são um gênero "A" em Hollywood, desde os tempos de Cecil B. DeMille com suas superproduções bíblicas nos anos 20, década em que o primeiro Ben-Hur da MGM, de 1926, já tinha o orçamento mais inchado da história. O diretor Neil Marshall, por sua vez, tem afinidade com a estética e os temas dos filmes "B". É desse choque atemporal que surge o trabalho mais recente do diretor inglês, Centurião (Centurion, 2010).

centurion

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Michael Fassbender vive o personagem do título, Quintus Dias, que estava num regimento que acabou dizimado pela tribo dos pictos na fronteira do Império Romano com a antiga Escócia. A resistência dos pictos incomoda Roma, que então destaca a mítica Nona Legião para rumar ao norte e vencer de vez os selvagens escoceses. Quando tentava escapar em direção ao sul, Quintus é salvo pela Nona Legião. Em instantes, sob o comando do General Virilus (Dominic West), o centurião se vê novamente na frente de combate.

Quintus e Fassbender personificam o arquétipo do herói dos épicos tipo "A": leal ao seu comandante, justo com os companheiros, delicado com as mulheres e sensível às injustiças cometidas ao seu redor. Todo o resto de Centurião tem pegada de filme classe "B", desde o elenco de aspirantes (Imogen Poots é a sub-Scarlett Johansson que dava pra pagar) até a tendência natural às metáforas políticas.

Marshall pode mudar de gêneros - foi do terror de Abismo do Medo para o thriller pós-apocalíptico de Juízo Final sem tropeços - mas não tem medo de recorrer sempre às soluções mais baratas e popularescas. O que não é e nunca foi, necessariamente, um demérito. Centurião se desenrola como um descomplicado filme de perseguição cuja maior preocupação estilística, inicialmente, é encontrar sempre formas diferentes de matar.

A sangueira e a coreografia das lutas são caros a Neil Marshall, e se Olga Kurylenko não fosse tão inepta com uma lança nas mãos o resultado seria até mais vistoso. Existe um fundo dramático em Centurião, mas, na melhor tradição do "B", o drama é reduzido ao mínimo - a última coisa que um filme desse tipo quer parecer é pensado demais - para dar espaço à ação. Em Centurião, apenas Quintus e a guerreira picta vivida por Kurylenko mencionam seus antepassados. É desnecessário perder tempo dando uma história pessoal aos demais personagens.

Não se deve menosprezar o trabalho de Marshall só porque suas ambições são modestas. Nos créditos finais, ao prestar agradecimentos a Walter Hill e Xenophon, o diretor demonstra que sabe bem onde o seu Centurião se enquadra. Hill é o diretor de Warriors - Os Selvagens da Noite e Xenophon, o pensador grego que escreveu Anabasis (relato que muitos interpretam ter servido de base para o próprio Warriors). Assim como seus predecessores, Centurião trata de um grupo de combatentes em fuga que, diante da derrota, questiona a própria razão de lutar.

São perdedores conscientes, enfim, e não heróis triunfantes, os personagens que tornam Anabasis, Warriors e Centurião tão autênticos. Só um bom filme "B" para saber que também existe valor na história dos excluídos e dos derrotados.

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Nota do Crítico
Ótimo