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Crítica

Círculo de Fogo | Crítica

Entre cores e refrãos

17.10.2014, às 14H28.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H44

Assim como a música pop, que lida com a familiaridade para atender as expectativas do ouvinte, Círculo de Fogo é um filme que parte de uma carência específica - a nostalgia de quem cresceu nos anos 1980 assistindo a seriados japoneses de robôs e monstros gigantes - e a remedia com uma sucessão de soluções imediatas, como refrãos.

circulo-de-fogo

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Essas soluções imediatas vão desde o tema principal da trilha sonora, que se repete como um bordão da vitória quando um Jaeger encaixa um murro num Kaiju, passando pelo importante uso das cores para resumir o estado de espírito dos personagens (close-ups amarelos são introspecção, vermelhos são para extravasar), até o prazer de ver os pilotos ordenando um movimento para logo depois o robô realizar esse mesmo movimento em escala colossal. É assim que Círculo de Fogo basicamente opera: pequenas expectativas criadas e em seguida recompensadas, ao longo do filme.

Entre a narrativa e o espectador se estabelece então uma familiaridade instantânea, como saber que o ninja Jiraya da TV quase sempre derrotará seus oponentes com uma espadada frontal ou lateral. Em alguns casos - como o meu, depois de uma sessão bombardeada de decibéis em IMAX 3D - isso pode gerar uma satisfação infantil: o diretor Guillermo Del Toro sabe do que eu preciso (porque ele refaz cena a cena esse jogo de promessa e entrega) e tem a cortesia de corresponder a esse desejo com um festival de cores e sons.

Se esse jogo funciona, em boa medida, é porque tudo no filme incentiva a nossa suspensão de descrença. Embora a trama se passe em locais reais do Pacífico, o mundo ali é obviamente saturado, como uma rave para menores, uma mistura de Evangelion com 2046 onde os personagens têm nomes-fantasia daqueles que se usam em sala de chat (Hannibal Chau? Stacker Pentecost?). Mais importante: desde o sangue azul fosforescente dos Kaiju, que é meio nojento mas parece ter gosto de doce, até o número zero de baixas na população (Del Toro diz em entrevistas que não queria mostrar nenhum civil morrendo), Círculo de Fogo defende a destruição caricata, indolor, numa época em que a estética documental tira do cinema-catástrofe seu grau de escapismo.

Nesse sentido, embora Círculo de Fogo não tenha sido o hit do verão, sem dúvida é um bem-vindo antídoto ao cinemão corrente, que parece ter perdido o prazer de iludir. Ao contrário de blockbusters que terminam reféns das relações de causa e efeito impostas em suas premissas ultradetalhadas, Círculo de Fogo inventa dois ou três termos rebuscados no começo - aperto de mão neural! - mas no fim o que importa é que há no cockpit do robô um botão com desenho de espada, onde está escrito "espada", e que aciona uma espada deveras cabulosa.

Esse é um tipo de simplicidade, das coisas com poder de síntese e feitas para consumo rápido, que o cinema hollywoodiano produzido hoje para nerds adultos parece ter vergonha, ou incapacidade, de assumir para si.

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Nota do Crítico
Ótimo