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Caminho da Liberdade | Crítica

Filme de travessia só expõe de seus personagens as fraquezas físicas

12.05.2011, às 18H29.
Atualizada em 06.11.2016, ÀS 09H06

Diz muito sobre O Caminho da Liberdade (The Way Back, 2010) o fato de a National Geographic coproduzir o filme do diretor Peter Weir (O Show de Truman, Mestre dos Mares). Na ausência de conflitos, as paisagens da Índia e do Marrocos se tornam os protagonistas.

caminho da liberdade

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A base é o livro Caminho da Liberdade, que a Editora Record publicou no Brasil este ano, com o relato do polonês Slavomir Rawicz, que teria fugido de um gulag - os campos de trabalho forçado mantidos pela URSS entre 1930 e 1960 - na Sibéria com outros presos políticos por mais de 6.000 km ao sul, até chegar na Índia em 1942. A veracidade da história é questionada, mas para o filme, que dramatiza o relato, isso não importa; basta tornar a coisa crível.

Transmitir credibilidade, na verdade, parece ser a ambição principal do diretor australiano. Caminho para Liberdade tem o toque perfeccionista de Weir nos figurinos e nas maquiagens, embora a reconstituição histórica fique prejudicada pelos cenários artificiais - só loucos como Jerzy Skolimowski filmam em florestas no inverno nórdico; Weir rodou as cenas de neve em estúdio na Bulgária - e pela salada de sotaques de Colin Farrell, Saoirse Ronan e Jim Sturgess.

Sturgess faz o protagonista, que teve seu nome trocado para Janusz no filme, e o motivo que o mantém vivo na fuga pode ser muito tocante, mas do ponto de vista da narrativa é bastante limitado. Os fugitivos que o acompanham não oferecem contraponto. Temos o piadista, o artista, o ladrão, o cético e o culposo, cada um deles fazendo um tipo muito bem definido, mas sem modulações que permitam qualquer conflito (mesmo o ladrão, tipificado como egoísta desde o começo, é amolecido no percurso). Travessias sobrehumanas são a situação ideal para expô-las, mas a única fraqueza de homens que Caminho da Liberdade mostra é a mais elementar, a física.

O que nos remete de novo ao lado National Geographic do filme. Auxiliado pelo já citado esforço de maquiagem, Weir é bastante competente na hora de mostrar como o clima castiga os corpos. O australiano é atento para os detalhes - seja um fiapo de cachecol enrolado duas vezes ao pescoço ou um pano molhado para cobrir um rosto cadavérico - e usa a música de Burkhard von Dallwitz com precisa parcimônia.

A maior desvantagem que o material original oferecia, o desafio de transmitir em duas horas a sensação de uma jornada de meses, é constantemente um problema no filme. Personagens transitam aos trancos (parece improvável que alguém durma ao pé da Muralha da China e só vá perceber na hora de acordar), e Weir tenta compensar nessa obsessão pelos detalhes, como no cumprimento dos poucos cabelos de Ed Harris.

Enfim, Caminho para Liberdade fica o tempo todo nessa correção de rumo, mantendo o sentimentalismo sob controle e suprindo com cosmética suas anemias de dramatugia.

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Nota do Crítico
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