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Anomalisa | Crítica

Charlie Kaufman diminui sua escala, adere ao stop-motion, mas continua soterrado pelas ideias

15.10.2015, às 19H46.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H37

Quando criou uma campanha de financiamento coletivo no Kickstarter para viabilizar a animação em stop-motion Anomalisa, Charlie Kaufman pedia para os fãs ajudarem a "produzir esse belo e único filme fora do típico sistema de estúdios de Hollywood, onde o público nunca poderia ver esse brilhante trabalho da forma como foi concebido". Com exceção de alguns planos com nudez frontal, porém, nada no filme vai contra a norma, nem difere muito da obra que Kaufman sempre realizou dentro do "sistema".

O longa acompanha Michael Stone, pai de família e guru de livros sobre atendimento ao consumidor, que chega à cidade de Cincinnati para palestrar. Stone parece alheio a tudo, as vozes que ouve têm todas o mesmo som, e mesmo as coisas mais triviais parecem penosas, como interagir com o taxista ou pedir comida no hotel. O artificialismo do stop-motion ressalta essa estranheza; até mover-se parece difícil para Michael Stone. De qualquer forma, a solução que ele encontra em Cincinnati contra o imobilismo é carnal: o adultério.

A crise existencial de Michael em Anomalisa não difere muito das dificuldades de interação de Nicolas Cage em Adaptação ou da confusão mental de Philip Seymour Hoffman diante das mulheres em Sinédoque, Nova Iorque, e os comentários sobre o ocaso do homem hétero branco adulto de classe média-alta é revestido de distopia (seria Michael um... replicante?) como em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. São os filmes mais célebres de Kaufman, e não é preciso ter visto todos para notar seus temas repetidos em Anomalisa.

A repetição em si não é o problema, e sim a incapacidade de Kaufman como diretor (aqui, em parceria com o animador de stop-motion Duke Johnson) de desenvolver as muitas ideias que são os verdadeiros personagens de seus dramas feitos de freaks e neuroses. Não faltam premissas instigantes em Anomalisa, desde o comentário político sobre o governo Bush (o filme se passa há uma década, no ano em que Kaufman escreveu a peça em que Anomalisa se baseia) até o design que faz dos bonecos mortos-vivos (só no close-up extremo, que revela as texturas do boneco, ele ganha alguma vida) e do hotel um não-lugar suspenso da realidade.

Mas em nenhum momento o filme substitui esse vazio por uma conclusão capaz de dar a Anomalisa um significado. O arco de Michael é uma grande introdução a um mal-estar contemporâneo, e a trama se encerra em plena construção, quando esse mal-estar é enfim diagnosticado. Mas o que fazer com esse diagnóstico em mãos? Kaufman continua sendo um especialista em amplificar de forma surreal nossas angústias modernas, mas não necessariamente em narrá-las. Anomalisa poderia tirar vantagem de ser um pequeno drama intimista, sem as pretensões de discurso de Adaptação, mas mesmo reduzindo sua escala (literalmente, pelo stop-motion) Kaufman continua imobilizado pelo seu potencial.

Nota do Crítico
Regular