Amor, Sublime Amor/20th Century/Reprodução

Filmes

Crítica

Amor, Sublime Amor retoma sua atemporalidade no remake de Spielberg

Com propostas espertas de mudança, filme preenche a adaptação original e dá potência à emblemática história também sobre o ódio

09.12.2021, às 16H52.
Atualizada em 04.02.2022, ÀS 16H34

Deixar o telhado para trás para caminhar pelas ruas do bairro e ver os rostos tão distintos que compõem a “America” cantada por Anita (Ariana DeBose) e Bernardo (David Alvarez) no novo Amor, Sublime Amor sintetiza bem o brilhante trabalho do diretor Steven Spielberg e do roteirista Tony Kushner no remake. Ainda que seja evidente a admiração que ambos têm pelo musical clássico -- Spielberg em mais de uma ocasião descreveu este projeto como “um sonho de criança” --, a cena demonstra como eles não o respeitaram excessivamente. Isso porque não há embaraço de se apropriar da trágica história de amor de Maria (Rachel Zegler) e Tony (Ansel Elgort) e fazê-la sua. Mas, mais do que abandonar a famosa iconografia da cena, a nova versão de um dos mais emblemáticos números do clássico simboliza também uma reparação histórica com o retrato que os Sharks tiveram em 1961. Se na adaptação original atores brancos tiveram seus rostos pintados para interpretar portorriquenhos, há aqui mais do que o bom senso de escalar latinos para os papéis. Há um reconhecimento e uma atenção à diversidade dessa comunidade imigrante -- e só bastou descer para a calçada.

Este é apenas um exemplo das nuances que a dupla adicionou à já bastante emocionante trama de Amor, Sublime Amor com decisões simples e espertas. Ora acrescentando breves, mas significativas linhas de diálogo, ora tendo um olhar mais gentil a figuras pouco exploradas na primeira adaptação, Spielberg e Kushner fazem do remake uma obra contemporânea ao tornar seus personagens mais plenos e tridimensionais. Assim, de peito aberto, olham para Anybodys (Iris Menas) não como uma menina que quer ser como os Jets, mas de fato como um homem trans que vê no grupo uma oportunidade de pertencer e ser reconhecido por quem é. De modo análogo, Chino (Josh Andrés Rivera) deixa de ser apenas o algoz do amor juvenil e passa a ser um totem mais claro deste que também é um conto sobre ódio.

Indo das beiradas para o coração do filme, essas mudanças também têm implicações no retrato do casal apaixonado, sobretudo com o espírito desafiador e destemido que Rachel Zegler adiciona à inocência de Maria. Tornando-a de fato dona da própria história -- e também muito por causa da escalação desta carismática atriz --, os temas de Amor, Sublime Amor se aproximam dos seus espectadores sem abrir mão da potência do drama shakespeariano que está no seu cerne. Na realidade, ao final, a dor desta Julieta termina por escancarar o quanto Jets e Sharks têm mais em comum do que o interesse por um mesmo território, e, invariavelmente, devolve o caráter atemporal ao musical.

Mas talvez nada emocione tanto quanto a participação de Rita Moreno no novo filme. Fazendo as vezes do Doc do original, a antiga Anita interpreta Valentina, uma personagem que por essência está entre as duas gangues. O simbolismo de seu não-pertencimento por si só já adiciona textura à história, ainda mais diante da sua doce insistência de ser uma voz de sabedoria para Tony e para os jovens metidos nessa guerra. E, embora ouvi-la cantando “Somewhere” seja lindo, nada deixa a força do seu retorno -- dessa vez, inclusive como produtora-executiva -- tão evidente quanto seu discurso na dolorida tentativa de estupro à Anita de Ariana DeBose. Sendo mulher e tendo vivido a vítima da cena décadas antes, suas palavras duras sobre o ato nada inofensivo dos Jets torna tudo mais real e grave: não é banal ou apenas garotos sendo garotos. É a perpetuação do ciclo da violência pelos próprios violentados.

Tratando-se de Spielberg, era esperado que seu Amor, Sublime Amor fosse tão grandioso quanto emocionante. Mas o que ele entrega é realmente um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos -- e a prova de que, ainda que estejamos em uma fase de remakes vazios e sem propósitos, ainda existem motivos para revisitar grandes clássicos.

Nota do Crítico
Excelente!