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Crítica

12 Horas Para Sobreviver - O Ano da Eleição | Crítica

Novo The Purge luta para acompanhar seu próprio crescimento

05.10.2016, às 18H07.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H44

Poucas franquias de cinema hoje conseguem se estabelecer e se expandir com a rapidez de The Purge, a cinessérie que começou intitulada Uma Noite de Crime no Brasil e agora no seu terceiro longa recebe o novo nome 12 Horas Para Sobreviver - O Ano da Eleição. Com as sequências vêm as chamadas dores do crescimento, porém.

Protagonista do segundo longa, Uma Noite de Crime: Anarquia, Leo Barnes (Frank Grillo) retorna para prestar seu apoio a uma candidata a presidente dos EUA que promete acabar com a lei da Noite do Expurgo. Grillo faz aqui o papel frequente no cinema americano do segurança número 1 do político, e ao lado da candidata vivida por Elizabeth Mitchell - visada por seus oponentes, que verão na noite anual de crime liberado uma chance de tirá-la do jogo presidencial - precisa sobreviver a mais 12 horas de caos e carnificina.

Chegar a um terceiro filme sem inflacionar demais o orçamento tem suas vantagens: Purge pode preservar sua essência e apostar em elementos mais ousados sem fazer muitas concessões. A franquia mostra aqui que tem se expandido seguindo a receita de uma cinessérie B consagrada, a dos filmes de zumbi de George A. Romero. Assim como A Noite dos Mortos-Vivos, que viu sua metáfora política original deixar o subtexto e se transformar em texto nas continuações (especialmente a partir de O Dia dos Mortos), Purge adere de vez ao discurso de justiça social. O embate entre as duas facções políticas neste terceiro longa sabe aproveitar a polarização real da campanha nos EUA e potencializar o que ela tem de absurdo e mesmo de distópico.

A questão da ousadia se traduz, por sua vez, num colorido maior de gangues e sociopatas, com máscaras e fantasias cuidadosamente confeccionadas para, quem sabe, se consagrar como ícones de cinema de terror (a Estátua da Liberdade é especialmente bem resolvida visualmente e, talvez por isso, foi parar no pôster do filme, embora apareça muito pouco). Nisso, este terceiro Purge se parece muito não com Romero mas com o Warriors de Walter Hill: na trama de fuga e perseguição, os protagonistas encontram gangues que representam etnias, classes e extratos sociais distintos, o que engrossa o caráter político do filme sem deixar de lado o prazer da construção de um terror B caricato.

Mas existe a desvantagem do crescimento. O roteirista e diretor James DeMonaco trabalha com um orçamento equivalente ao do segundo filme, mas esta continuação aumenta consideravelmente em escopo, e fica frequentemente a sensação de que o terceiro Purge foi além das suas capacidades. Dos terrores de baixo orçamento produzidos por Jason Blum (de franquias como Atividade Paranormal e Sobrenatural), este talvez seja aquele que mais denuncia sua precariedade: o caso nas ruas nunca tem caos suficiente, a população desvairada nunca parece suficientemente populada. É, ademais, um filme que exige horizontes mais amplos, planos aéreos de ruas e avenidas - exige, enfim, um fôlego de registro espacial que condiza com suas pretensões - mas os cenários sempre parecem pequenos demais.

DeMonaco tenta compensar na estilização - nos filtros de luz, nas câmeras lentas - e nas atuações teatralizadas (desde o pastor possuído até a forma como Grillo ergue alto a pistola sempre que precisa trocar o pente). O resultado é um filme de efeito, acima de tudo, em que as gangues ficam mais posando para as câmeras, com seu potencial represado de violência, como num videoclipe de gangsta rap, do que cometendo atos violentos de fato. É bem frustrante assistir a um filme cuja premissa envolve justamente o ato de extravasar violências represadas, e que não consegue consumar isso na tela.

De resto, a trilogia mostra aqui que, embora esteja consolidada, ainda tem gás para queimar, com os devidos ajustes. Não dá para dizer o mesmo da maioria das franquias americana, tanto as A quanto as B.

Nota do Crítico
Bom