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Lembra desse? Batman no cinema - Parte 3

Lembra desse? Batman no cinema - Parte 3

04.04.2002, às 00H00.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H32
O ano de 1989 foi um divisor de águas para os filmes baseados em HQs, sub-gênero padecendo do de descaso em Hollywood desde o fim dos anos 70, o último "boom" de produções do gênero. Fora os esporádicos filmes do
Super-Homem e uma ou outra produção sem vergonha, os quadrinhos passaram longe das telas. A retomada deve se a Batman - o filme.

Na verdade, esta película só se tornou possível graças ao bom e velho Cavaleiro das trevas de Frank Miller, publicado nos Estados Unidos em 1985 e que resgatou o Morcegão do ostracismo, verdadeira ressaca do seriado cômico dos anos 60. Até então quando se falava em Batman, a primeira imagem que vinha à cabeça do público era um bufão barrigudo e de músculos flácidos, acompanhado por um moleque de meias-calça, que combatia vilões engraçados. O fenômeno deflagrado por Miller não só resgatou a imagem do Morcego como ajudou a levantar a moral dos quadrinhos como um todo. Várias graphic novels depois, os executivos dos estúdios já estavam de orelha em pé com os lucros em potencial de um longa-metragem sério do nosso herói.

Dado o ponta-pé inicial, a primeira polêmica em torno do filme foi a contratação de um diretor praticamente desconhecido para o projeto. Tim Burton até então só havia dirigido dois filmes cômicos: A grande aventura de pee-wee e Os fantasmas se divertem. Os fãs tremeram. Batman nas mãos de um diretor de coisas assim&qt;& No entanto, quando o nome do alucinado Jack Nicholson foi confirmado como o Coringa, os ânimos voltaram a se elevar! A euforia tornou-se generalizada assim que outros nomes de peso juntaram-se ao elenco. Para completar, os produtores prometeram um roteiro com elementos da mini-série de Miller e da graphic novel A piada mortal de Alan Moore. Tudo isto ainda viria embalado por um orçamento milionário como os fãs de quadrinhos não viam desde o primeiro Superman. O banho de água fria, no entanto, veio com a escalação do protagonista: Michael Keaton.

Comediante de filmes de segunda, Keaton, que havia trabalhado com Burton em Os fantasmas se divertem era tampinha, calvo e não gozava da menor semelhança com o milionário Bruce Wayne. Primeira opção do diretor, ele se tornou um martírio para os fãs. Burton justificou-se que não queria um Super-homem, mas um herói plausível, um homem comum, com o qual o público pudesse se identificar.

As primeiras imagens de Keaton posando de uniforme até que tranqüilizaram o público. Afinal, era uma armadura, algo. em si. mais lógico até do que um colante. E o filme seguiu em paz até sua estréia.

TINHA TUDO PARA DAR CERTO

Sinistro, sombrio, opressor mas... equivocado. É assim que pode se definir o filme. A atmosfera era a certa. Os cenários deslumbrantes; a trilha sonora de Danny Elfman, épica; o vilão excelente, mas o roteiro que é bom... necas! A história demora para decolar e depois entra em queda-livre. Tim Burton parece ter dirigido o filme algemado e com uma espingarda apontada para a cabeça. Sua direção foi burocrática como uma modorrenta repartição pública. Personagens entram e saem com a profundidade de um pires, transitando por situações mal-resolvidas e cenas de ação nada empolgantes. Resultado: um filme morno, muito longe do que estava sendo prometido.

PECADOS CAPITAIS

O filme comete alguns pecados que limaram todo seu potencial:

  1. Michael Keaton: Definitivamente, esse cara NÃO é o Batman. Mais parecido com uma fuinha do que com um morcego, sua personagem é mal construída. Em vez de um playboy, temos um milionário excêntrico e debilóide. Menção especial para a cena em que ele revela sua identidade secreta à fotógrafa Vicky Vale. Os dois mal se conheciam e dormiram juntos uma única vez!
  2. A Armadura: Era muito bonita quando Batman estava parado e bem longe, no meio das sombras. De prática, porém, não tinha nada. Keaton parecia ter vestido a roupa de seu irmão mais velho. A máscara dançava folgada sobre seu rosto. O restante do traje era rígido como um Robocop, e o herói não podia olhar para os lados. Um verdadeiro modelito-torcicolo, natural como um bloco de cimento nas sofríveis cenas de ação.
  3. O elenco de apoio: Pat Hingle no papel de Comissário Gordon (ou gordo, por motivos óbvios) está um desperdício. A fotógrafa Vicky Vale (Kim Basinger, interpretando a si mesma) é um bibelô descartável. Seu colega Alex Knox (Robert Wuhl) é um mala-sem-alça. Harvey Dent (Billy Dee Williams) está ali simplesmente por estar. O mesmo pode se dizer do mafioso Grisson (Jack Palance) e a namorada do Coringa, Alicia (a ex-Sra. Mick Jagger, Jerry Hall), que estão na história só para encher lingüiça.
  4. O Coringa matando os pais do Batman: Ora, seria melhor se tudo continuasse sendo um acaso trágico. Essa palhaçada só serve para justificar uma frase de efeito do protagonista: "Eu criei você, mas você me criou primeiro". Eeeeca! A cena do assassinato em si é cafona. Uma pífia tentativa de reproduzir a maravilhosa seqüência muda em Cavaleiros das trevas. Tudo em nome da simplificação da trama e do clichê. Só faltava o Coringa dizer: "Eu sou seu pai"!
  5. A morte do Coringa: Idiota e ridícula! Não há pior clichê do que vilão caindo para a morte no fim do filme! Sem falar que a cena em si é tecnicamente deprimente. O Coringa que cai é uma animação muito da sem-vergonha.

AS VIRTUDES DO FILME:

  1. Abriu o filão de adaptações milionárias baseadas em HQs, que começou nos anos 90 e chega à maturidade nos dias de hoje.
  2. Possibilitou a criação do novo desenho animado do morcego em 1992. Essa produção revolucionou as animações americanas de aventura na TV, impondo um novo padrão de qualidade e respeito com as personagens.
  3. Projetou as carreiras de Tim Burton (que pôde realizar os excelentes Edward-Mãos de Tesoura, Ed Wood e O Estranho mundo de Jack) e Danny Elfman, um dos mais requisitados compositores de trilhas da atualidade. Detalhe: Elfman é quem mais compõe para filmes de HQ.
  4. Jack Nicholson, apesar de "gorducho" para o papel de Coringa, carrega o filme nas costas.
  5. O mordomo Alfred (Michael Cough) é correto desde o primeiro momento. Parece ser a única personagem, além do Coringa, representada com adequação. Ponto para o veterano Cough, que garantiu o emprego em todas as continuações, a exemplo do inexpressivo Comissário vivido por Pat Hingle.
  6. Não há o mala-sem-alça do Robin!
  7. O filme ganhou o Oscar de melhor direção de arte, tendo sido indicado a vários outras categorias técnicas.

QUEM RI POR ÚLTIMO, RI MELHOR.

Com sua campanha de marketing inigualável, o filme tornou-se uma febre mundial. Seu sucesso instantâneo fez dele uma das maiores bilheterias de todos os tempos, até então; para a alegria especial de Nicholson, que abriu mão de seu cachê por uma porcentagem dos lucros. Na época, o doido de plantão em Hollywood embolsou 65 milhões de verdinhas!!! Realmente, o Coringa, roubou o filme!