Cena de Zorro, nova série do Prime Video (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Zorro, nova série do Prime Video (Reprodução)

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Prime Video faz Zorro para a geração GoT - mas com aquele tempero de telenovela

Nova série do personagem está em seu melhor quando confia na latinidade do herói

Omelete
4 min de leitura
19.01.2024, às 06H00

A história do Zorro na cultura pop sempre esteve emaranhada em questões políticas e raciais complicadas. Criado por um homem branco americano (Johnston McCulley), e mais comumente retratado como o filho de um aristocrata espanhol que se tornou um dos maiores fazendeiros da Califórnia colonizada, ele ainda assim se transformou em ícone de latinidade por lutar ao lado dos nativo-americanos e dos moradores pobres da colônia contra a tirania violenta da coroa espanhola. Tanto é assim que Zorro estrelou dezenas de filmes, séries e telenovelas produzidas por toda a América Latina, se mostrando muito mais ubíquo por aqui do que em outras partes do mundo.

Acontece que, hoje em dia, não cai tão bem essa ideia do espanhol branco se fazendo de salvador solitário do povo latino, e muito menos do povo nativo. Zorro, nova produção (espanhola, diga-se de passagem) do Prime Video estrelada pelo personagem, sabe muito bem disso - mas também não quer perder o público que ainda se apega à versão Don Diego de la Vega do herói mascarado. Robert Rodriguez fracassou na tentativa de colocar um Zorro genuinamente latino na telinha (a série dele passou anos em desenvolvimento antes de ser cancelada sem nem exibir o piloto), e a suposta produção do Disney+ estrelada por Wilmer Valderrama ainda não é uma realidade, então por que arriscar?

Confrontado com esse dilema, o roteirista Carlos Portela (As Telefonistas) escolhe o meio-termo. O nosso Zorro principal ainda é Don Diego, interpretado por Miguel Bernandeau (o Guzmán de Elite), que tem mesmo aquela aura de galã barato de novela - mas ele não detém mais o monopólio do traje do herói. Aqui, Zorro é como um cargo místico honorário, passado de pessoa em pessoa de acordo com a determinação de um espírito nativo-americano encarnado em uma raposa. Daí que acompanhamos vários flashbacks do antecessor de Diego, um rapaz nativo interpretado por Cristo Fernández (Ted Lasso); e que entra em cena a irmã deste falecido herói, Nah-Lin (Dalia Xiuhcoatl, de A Vingança das Juanas), que acredita ter direito a tomar seu lugar.

Uma pena que Portela se enrole tentando explicar porque o espírito do Zorro escolheu Diego, recorrendo à ladainha cansada de que “só ele pode levar união a uma terra dividida”, e ainda colocando-a na boca do chefe nativo-americano que serve como uma espécie de guia turístico para o protagonista na sua nova aventura. Por cima disso, ensaia nos primeiros episódios um confronto entre Diego e Nah-Lin que passa muito perto de vilanizar a “agressividade” que ela demonstra diante daqueles que literalmente assassinaram seu irmão e roubaram o seu lar. A concessão que Zorro faz à contemporaneidade, portanto, tem cheiro de ginástica retórica colonialista - o que, sejamos sinceros, é bem espanhol da parte dela.

Não dá para dizer que a série não tenha seus charmes, no entanto. Na direção dos primeiros episódios, Javier Quintas (La Casa de Papel, Toy Boy) reafirma seu talento para produzir blockbusters com aura moderna mesmo dentro da relativa limitação orçamentária da televisão europeia. Nas mãos dele, Zorro é uma série de ação de respeito, pintada com desenvoltura em vários tons de laranja e vermelho: das labaredas que tendem a cercar o herói durante seus feitos mais épicos ao sangue que ele tira de seus inimigos quando corta o “Z” nas suas bochechas, passando pela areia que cerca o vilarejo colonial que um dia seria Los Angeles. 

Quintas sabe, enfim, como realçar detalhes de produção que nos convencem da ambientação de época, e como esconder a escala meio patética dessa mesma produção. Quando chamar a atenção para a violência ousada da série, e quando apelar para o passo acelerado do procedural televisivo a fim de deixar na surdina um trabalho de dublês pouco imaginativo e ainda menos impactante. Esta é Zorro para a geração Game of Thrones, acostumada a uma dieta de sangue abundante servida em cenários pseudo-medievais mal-iluminados - mas, para ser justo com ela, a série executa essa receita com mais eficiência do que a maioria dos imitadores recentes de Thrones.

E o roteiro de Portela, por toda a sua preguiça ideológica, ainda brilha quando ele esbarra no fato de que Zorro é, em seu coração, uma história de telenovela. As rusgas entre Diego e a ex-namorada Lolita (Renata Notni) - incluindo um beijo roubado seguido de tapão na cara! - são deliciosas; o triângulo amoroso que surge entre eles dois e o atual noivo da moça, Monasterio (Emiliano Zurita), complicado pelo fato de que o rapaz é talvez o único policial com um pingo de consciência em toda a Califórnia, promete melodrama de primeira; e Paco Tous está ótimo como o mordomo mudo de Don Diego, caracterizado com cuidado para se tornar ao mesmo tempo figura heróica e alívio cômico da série.

É até irônico que a graça salvadora de Zorro more justamente nos cacoetes que ela empresta de uma forma narrativa tão latina. Não importa quão espanhol tentem fazê-lo, parece que o vigilante mascarado do Pueblo de Los Angeles sempre será inerentemente nosso.

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