Chemical Hearts

Créditos da imagem: Prime Video/Divulgação

Amazon Prime Video

Crítica

Chemical Hearts

Fazendo bom uso do melodrama adolescente, filme da Amazon surpreende por manter o pé no chão

Julia Sabbaga
21.08.2020
16h25

Se há algo que amaldiçoa grande parte dos filmes adolescentes focados no grande público é a confiança em clichês. Jovens misteriosos, poesia dramática, paixões instantâneas, uma morte difícil de superar e diálogos melodramáticos são alguns dos fatores esperados quando se entra no universo do jovem adulto. Mas isso é regra porque a fase adolescente da vida é intensa e é, sim, recheada de clichês. E enquanto existem muitos filmes por aí que lidam mal com a quantidade de armadilhas que o gênero representa, há casos em que o clichê é bem utilizado. Chemical Hearts, adaptação do livro de Krystal Sutherland que chegou no Amazon Prime Video, é um exemplo. 

Chemical Hearts tem uma premissa básica: Henry, que sempre sonhou em ser editor do jornal da escola, chega ao cargo durante seu último ano, mas não desacompanhado. Ele fica no comando da publicação ao lado de Grace, uma recém-chegada à escola, transferida de um colégio vizinho. Bonita, visivelmente enfraquecida, e claramente superando um acidente, já que anda com uma bengala, Grace ganha o interesse de Henry por seu misticismo. Aos poucos, aprendemos que ela perdeu seu namorado há alguns meses, em um acidente de carro. 

O que sabemos sobre Henry: ele tem pais que são namorados desde a escola, e uma irmã que está superando um coração partido, presente para entregar aquelas pequenas pérolas de sabedoria que acabarão nos diários de muitos espectadores de Chemical Hearts. Quando conhecemos melhor o garoto, aprendemos que seu hobby é Kintsugi, a arte de consertar vasos quebrados. Instantaneamente, visualizamos o rumo da história. Grace e Henry se envolverão até que inevitavelmente a briga acontecerá e Grace, claro, fará seu paralelo: "eu não sou um vaso que você pode consertar". Bingo. 

Mesmo assim, Chemical Hearts surpreende. Isso acontece porque o filme dirigido por Richard Tanne é admiravelmente pé no chão. Existe uma estética fria e melancólica que sai diretamente do Instagram, e momentos de romantismo e tristeza, mas isso é envolto por uma fragilidade genuína. Não há brigas exageradas ou desentendimentos baratos. O brilho do filme está em pequenas coisas: abrir e fechar o celular, apagar mensagens não-enviadas, se envolver com alguém que você pouco conhece. Mas seu maior acerto está na real dificuldade de superar um trauma. É admirável que o longa não resolva os problemas de Grace de uma hora para outra. Apesar de um clímax que beira a romantização da dor, o filme leva Grace em uma jornada sentimental de altos e baixos raramente vista em produções como esta.

Chemical Hearts consegue enganar até quem espera um romance ao pé da letra. Em certos momentos, o filme se parece mais uma jornada de superação de trauma, com todas suas dificuldades, e bem-construída neste sentido. O que causa a inversão é que a vida de Grace, neste momento, é testemunhada por Henry. Por isso a entendemos como uma história de amor.

Deste modo, muito depende de Lili Reinhart, e a atriz - que também produz o filme - entrega bem. Sua performance harmoniza vacilo e fragilidade transmitindo sentimento, e para quem entrou no clima do longa, certamente arranca lágrimas. Acompanhada por Austin Abrams, que faz um trabalho justo como Henry, Reinhart flutua entre os bons e maus momentos de Grace com naturalidade.  

Existem algumas ideias discutidas superficialmente em Chemical Hearts, desde suicídio até o descontrole hormonal ou os efeitos químicos da desilusão amorosa. E enquanto isso pode ser entendido como um descuido, pode também muito bem representar a confusão da idade. Os personagens de Chemical Hearts não são grandes pensadores, e se fossem, seriam menos reais. Entre pseudo-intelectualidades da adolescência e a prepotência de conhecimento do mundo, eles guiam uma história jovem com entendimento jovem, e caminham para fora do limbo adolescente desviando dos tropeços de seus estereótipos. 

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Nota do Crítico
Bom