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O cinema existencialista de John Huston

O cinema existencialista de John Huston

Roberto Elísio dos Santos
08.08.2006
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h23
Atualizada em 29.06.2018 às 02h23

John Huston

Seu último refúgio

O falcão maltês

O tesouro de Sierra Madre

Uma aventura na África

O céu por testemunha

O homem que queria ser rei

Annie

Na contramão de Hollywood, o diretor John Huston, que completaria 100 anos em 5 de agosto, coloca os personagens de seus filmes em situações absurdas, normalmente fadadas ao fracasso, mas que levam à reflexão sobre a condição humana.

Filho do ator Walter Huston, o cineasta iniciou sua carreira em Hollywood na década de 1930 como roteirista. Sua participação como escritor em filmes como Jezebel (dirigido por William Wyler em 1938) e Seu último refúgio (com direção de Raoul Walsh, produzido em 1940) o habilitou a se tornar diretor. A primeira oportunidade oferecida pela Warner Bros., produtora para a qual trabalhava, foi no hoje clássico O Falcão Maltês, baseado no romance policial de Dashiell Hammett.

A adaptação do livro de Hammett para o cinema, uma produção barata para a época, foi sucesso de público e se tornou o primeiro filme-noir, estilo assim batizado pelos franceses na década de 1950, por causa da fotografia contrastada - herança do expressionismo alemão -, da ambientação sombria e decadente e de seu tom amoral.

O Falcão Maltês (também conhecido no Brasil como Relíquia Macabra) já apresenta a visão cínica de John Huston sobre o mundo. Na trama, o detetive Sam Spade é contratado por uma mulher que o seduz e engana para localizar uma estátua de ouro incrustada de jóias. A peça é objeto de cobiça de vários bandidos, que não medem esforços para se apoderar dela, mesmo que precisem matar, mentir ou roubar para conseguir seu intento. Este filme também marca o início da parceria do diretor com o ator Humphrey Bogart, que até então só havia interpretado papéis de gângsteres que morriam no final.

John Huston realizou outros filmes-noir de destaque, a exemplo de Paixões em fúria, de 1948, e O segredo das jóias, produzido em 1950. No primeiro, Bogart interpreta o soldado desiludido que precisa entregar a condecoração dada a um jovem morto na Segunda Guerra Mundial ao pai e à viúva, donos de um hotel em Key West. Além de um furacão que assola o local, o protagonista precisa enfrentar um grupo de gângsteres que se esconde no hotel. Já o segundo filme mostra a ação de um grupo de ladrões que planeja o roubo de uma joalheria. O crime se complica por causa da ganância dos envolvidos e por obra do acaso, o que leva a um final trágico.

Causas absurdas

Nos filmes que escreveu e dirigiu, John Huston sempre colocou seus personagens em uma situação-limite que os impelem a se engajar em empreitadas perdidas. Assim é com os garimpeiros de O tesouro de Sierra Madre, que lutam para encontrar ouro no deserto do México e vêem o resultado de seu trabalho ser levado pelo vento. A atuação de Walter Huston neste filme lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante.

Também em Uma aventura na África, de 1952, dois personagens diametralmente opostos, uma missionária pudica de meia idade (interpretada por Katherine Hepburn) e um marinheiro rústico e amoral (novamente Bogart, em um papel vencedor do Oscar de melhor ator) enfrentam o exército alemão e os perigos da selva africana durante a Primeira Guerra Mundial. No fim, precisam sacrificar seu barco para impedir o avanço dos alemães e se descobrem apaixonados, apesar das diferenças.

Este enredo foi repetido 13 anos depois no western Justiceiro Implacável, com Katherine Hepburn dessa vez contracenando com o caubói crepuscular John Wayne, que repetia o velho pistoleiro Rooster Cogburn de Bravura Indômita, filme dirigido por Henry Hathaway em 1969. Já o ator e cineasta Clint Eastwood prestou uma homenagem a Uma aventura na África, em Coração de caçador, de 1989, no qual interpreta o próprio John Huston, mais preocupado em caçar do que realizar o filme.

Personagens deslocados - a freira (Deborah Kerr) e o soldado (Robert Mitchum) de O céu é testemunha, o pintor impressionista francês Tolouse Lautrec (José Ferrer) no filme Moulin Rouge, os caçadores de cavalos selvagens (Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift) de Os desajustados, o casal de matadores profissionais (Jack Nicholson e Kathleen Turner) de A honra do poderoso Prizzi - ou à margem da sociedade - o boxeador decadente (Jeff Bridges) de Cidade das ilusões, os assaltantes (Sterling Hayden, Sam Jaffe e Jean Hagen) de O segredo das jóias - são comuns nas realizações de John Huston.

O filme que melhor apresenta a visão cética de John Huston é O homem que queria ser rei, realizado em 1975, baseado em um conto de Kipling. Na Índia, dois malandros (vividos por Sean Connery e Michael Caine) resolvem viajar para as aldeias remotas do Afeganistão para, com sua esperteza, tornarem-se monarcas, governando os ingênuos e supersticiosos nativos. A cabeça decepada e degolada de um deles é, paradoxalmente, o símbolo de seu sucesso e de seu fracasso.

Durante a Segunda Guerra Mundial, John Huston foi incorporado ao exército americano e dirigiu quatro documentários sobre o conflito: Report from the Aleutians, Battle of San Pietro, Tunisian victory e Let there be light. O último, narrado por Walter Huston, mostra as seqüelas psicológicas que uma guerra deixa nos jovens soldados. Por seu conteúdo antibelicista, o filme foi censurado pelos militares e só pôde ser exibido nos Estados Unidos na década de 1980.

Altos e baixos

A postura crítica de John Huston era incompatível com o clima de perseguição gerado pela histeria anticomunista que se espalhou pelos Estados Unidos na década de 1950. Por este motivo, começou um auto-exílio na Irlanda, onde criou cavalos, sua paixão, ao lado das lutas de boxe, de caçadas, de bebidas, de charutos e das mulheres. E foram justamente os excessos de sua vida que causaram sua morte por enfisema, em 28 de agosto de 1987, logo depois de terminar as filmagens de Os vivos e os mortos, baseado em um conto de James Joyce, com sua filha Angelica em um dos papéis principais.

Ao longo de sua carreira, o diretor realizou filmes extraordinários e memoráveis (como A glória de um covarde, Moulin Rouge, O diabo riu por último, Moby Dick, Roy Bean o homem da lei, À sombra do vulcão e Os vivos e os mortos) e produções medíocres ou meramente comerciais (sendo exemplos o musical Annie e a inusitada aventura Fuga para a vitória, que mistura futebol e Segunda Guerra Mundial e conta com Sylvester Stallone e Pelé no elenco).

John Huston foi um cineasta que, além de ter dirigido filmes que merecem ser revistos (embora nem todos os títulos tenham sido lançados em DVD no Brasil), mostrou que o cinema não é mero entretenimento, mas pode ser uma manifestação artística que conjuga preocupações sociais e expõe os dilemas existenciais do ser humano tão bem ou melhor do que muitas obras literárias ou tratados filosóficos.

Para assistir em DVD:

O Falcão Maltês (The Maltese Falcon) - 1941 - Warner

O tesouro de Sierra Madre (The treasure of Sierra Madre) - 1948 - Warner

O segredo das jóias (The asphalt jungle) - 1950 - Silver Screen Collection

A glória de um covarde (The red badge of courage) - 1951 - Warner

Uma aventura na África (The African Queen) - 1952 - VTO Continental

O céu por testemunha (Heaven knows, Mr. Allison) - 1957 - lançamento

O bárbaro e a gueixa (The Barbarian and the Geisha) - 1958 - Fox

Os desajustados (The misfits) - 1961 - Fox

A Bíblia... no início (The Bible... in the beginning) - 1966 - Fox

Cassino Royale (Casino Royale) - 1967 - MGM

Roy Bean - o homem da lei (The life and times of Judge Roy Bean) - 1972 - Warner

Fuga para a vitória (Escape to Victory) - 1981 - Warner

Annie (Annie) - 1982 - Sony Pictures

Para ler:

CIMENT, Michel. Hollywood - Entrevistas. São Paulo: Brasiliense, 1988.

HUSTON, John. Um livro aberto. Porto Alegre: L&PM, 1987.

MATTOS, A. C. Gomes de; LEEMANN, Sérgio. Huston, Lubitsch, Zinnemann . Rio de Janeiro: EBAL (Coleção Cinemin), 1985.

Roberto Elísio é jornalista, com pós-doutorado em Comunicação pela ECA-USP, professor da Universidade IMES e autor dos livros Para reler os quadrinhos Disney (Editora Paulinas), As Teorias da Comunicação: da fala à internet (Editora Paulinas) e História em Quadrinhos Infantil: leitura para crinaças e adultos (Editora Marca de Fantasia) e organizador, com o professor Waldomiro Vergueiro, de O Tico-Tico 100 anos: centenário da primeira revista de quadrinhos do Brasil (Opera Graphica).