Imagem do retorno de The Good Doctor/ Divulgação/ABC

Créditos da imagem: Imagem do retorno de The Good Doctor/ Divulgação/ABC

Séries e TV

Artigo

The Good Doctor repete fórmulas conhecidas na estreia do 2º ano

A volta de um importante personagem é o principal atrativo da première

Henrique Haddefinir
27.09.2018
15h03
Atualizada em
27.09.2018
16h18
Atualizada em 27.09.2018 às 16h18

A primeira temporada de The Good Doctor foi mais uma vitória da grade do canal ABC, já tão bem fornido da imensa trajetória de Grey’s Anatomy. Foi como descobrir uma nova e contínua fonte de renda, de onde viriam muitas e muitas temporadas, tal qual a série de Shonda Rhimes, mesmo que o público que procura pelo gênero já tenha um parâmetro definido. Agora, estamos vivendo um momento curioso, em que The Good Doctor está para Grey’s da mesma maneira que Station 19 está para 9-1-1: é como se os produtos se equiparassem na sua qualidade e proposta. Grey’s e 9-1-1 se apoiando em ousadia. Station 19 e The Good Doctor seguindo corretamente, mas daquele jeito meio genérico. The Resident, aliás, também está aí dentro dessa mesma categoria.

O problema não é ser genérico, que fique claro. A questão aqui é o ruído entre o que a série quer transmitir (a ideia de uma nova perspectiva do mesmo assunto) e a realidade em si (de que tudo não passa do mesmo assunto). David Shore, criador de The Good Doctor, nem disfarça que apenas trocou o protagonista de House por Shaun (Freddie Highmore). House não tinha autismo, mas suas incapacidades interpessoais eram bastante acentuadas. Assim, mesmo que os temperos nos diálogos de Shaun não sejam ácidos, a ideia é exatamente a de explorar genialidade versus introversão. Com uma ou outra diferença ali ou aqui, o resultado é aquela zona de segurança de onde a série dificilmente vai sair.

No decorrer de sua recente trajetória, a série permaneceu dentro de uma mesma métrica narrativa, que começa com um caso complicado, segue com todos duvidando de Shaun, até que ele resolve o problema e algum outro personagem faz um discurso sobre como ele é maravilhoso. Dessa métrica, passando pelo protagonista e chegando até a participação de Lisa Edelstein (a Cuddy de House), tudo deixa uma sensação de déjà vu. É televisão segura, confortável, toda ajeitadinha dentro da caixa certa, só parecendo que está entregando um novo ângulo, quando na verdade é tudo mais do mesmo. Feito corretamente, mas longe de ser o tipo de produção que vai fazer alguém esperar ansioso pela próxima semana.

Same Old Story

A nova temporada começou exatamente onde a outra terminou, com Shaun precisando cumprir as ordens do chefe e melhorar suas capacidades de comunicação. Por ser uma estreia, o foco deveria estar muito presente nele, mas a despedida de Jared (Chuku Modu) obrigou os roteiristas a criar uma interação entre eles. Então, os dois partem para ajudar moradores de rua e lá descobrem alguém que não deveria estar ali. A história é igualzinha a uma vista em House, com apenas uma mudança no gênero (em House, a pessoa em questão era uma mulher). Mas, até a família reencontrando o desabrigado foi parte de uma repetição. Para uma estreia de segunda temporada, esse reuso temático soa desapontador. Uma história reciclada, enfadonha e sem nenhum elemento surpresa.

A atuação de Highmore também esteve um tom acima do habitual. Ele ainda acerta muito na resistência em trocar olhares, na forma peculiar com a qual desenvolve raciocínios. Mas, sua voz parece cada vez mais com a de um desses aplicativos que criam narrações monocórdias e, depois de duas temporadas de Atypical, o público exige mais organicidade de quem está designado a interpretar as características de um autista. O fantasma de Norman Bates ainda assombra Highmore e, talvez, em sua busca para se afastar dele, o ator tenha atravessado as fronteiras da organicidade e tenha estereotipado o papel.

Em torno disso, o episódio trouxe uma sucessão de pequenos plots envolvendo personagens secundários sem grande importância. Depois de considerar todo o enredo da estreia, o “grande evento” de retorno foi a reintegração de Paige Spara ao elenco. Ela viveu a vizinha descolada de Shaun, Lea, que sumiu da primeira temporada sem maiores explicações. A personagem era uma promessa, parecia ser aquela que ajudaria Shaun em suas novas descobertas, mas isso não aconteceu. Agora, o showrunner tem uma chance de retomar esse arco, que provavelmente não irá para nenhuma outra direção que não seja óbvia.

The Good Doctor deve – com o tempo – se agarrar mais ainda à sua natureza procedural e entregar histórias mais e mais fechadas em um mesmo episódio. No fim das contas, David Shore vai preferir ficar quietinho dentro do quadrado que o consagrou na teledramaturgia americana. Optando por ser segura e repetitiva, The Good Doctor se estabelece opção confortável. Ela não está errada e nem é mal feita (de fato, seu sucesso até na Rede Globo é um sinal de que a fórmula funciona muito bem). A série só não é ótima, esperta, ousada - só é absolutamente esquecível.