Sucesso de Pantanal nos ameaça ou nos privilegia com a moda dos remakes?

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Séries e TV

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Sucesso de Pantanal nos ameaça ou nos privilegia com a moda dos remakes?

Nova coluna Ovo Mexido no Omelete discute a TV em todas as suas épocas, formas e transições

Omelete
7 min de leitura
Henrique Haddefinir
21.06.2022, às 16H45
ATUALIZADA EM 21.06.2022, ÀS 17H32
ATUALIZADA EM 21.06.2022, ÀS 17H32

A primeira vez que a Globo lançou um remake cheio de expectativas foi em 1986, quando a espetacular Selva de Pedra chegou com a promessa de repetir um fenômeno e acabou se tornando apenas uma emoção mediana. Lá, os problemas já começavam com a escalação de Fernanda Torres, uma atriz confusa com a linguagem televisiva e que nunca mais voltou a fazer novelas. Era o prenúncio de um equilíbrio que a empresa parecia só alcançar nos horários menos nobres. Tudo bem que Irmãos Coragem (1970-1995) no horário das 18h parecia um delírio, mas eles já tinham acertado antes com Mulheres de Areia (1973-1993) e com A Viagem (1975-1994), ambas de Ivani Ribeiro.

Esse tal equilíbrio não é fácil de ser encontrado... É uma receita que inclui uma atenção à linguagem original, o aparamento de arestas excessivamente datadas, a roupagem moderna respeitosa e o mais importante: uma escalação calculadíssima. Quase sempre, escolher atores menos conhecidos para papeis icônicos pode ser uma saída segura (razão pela qual, em Pantanal, a Gabriela de Juliana Paes foi tão rejeitada e a Juma de Alanis Guillen tão bem recebida). Em outras, é uma questão de evitar a força da memória. A Viagem e Mulheres de Areia passavam por menos comparações, mas, tampouco eram consideradas marcos em suas primeiras versões. Irmãos Coragem e Selva de Pedra - os dois fracassos - eram.

Pantanal quase foi da Globo antes de ir parar na extinta Manchete depois de ser rejeitada. O sucesso foi a vingança derradeira de Benedito Ruy Barbosa, que incomodou a soberania global numa época em que as novelas das 20 horas eram vistas por quase toda a população do país. Anos depois, a novela foi parar no acervo do SBT que contrariou termos contratuais e colocou a produção no ar, em 2008. Até hoje, uma briga pelos direitos da obra original está em pauta, mesmo que, com o grande sucesso do remake, essa seja uma questão praticamente encerrada. A Pantanal de 2022 soa mais polida, mais vívida, mais elegante e mais interessante.

Como bem disse Tina Fey em uma das apresentações do Globo de Ouro: “Quando uma coisa dá minimante certo, Hollywood encontra um jeito de repetir sem parar até que todo mundo odeie”. Bastaram as primeiras semanas de Pantanal no ar para que as novas possibilidades de remake invadissem a internet. Quase toda a carreira de Benedito foi prometida para o horário nobre. Refazer O Rei do Gado, Renascer, Terra Nostra... títulos que até hoje soam visualmente aceitáveis e infringem a primeira regra de um remake: refaça apenas o que for ser beneficiado pelas facilidades modernas. Faria muito mais sentido continuar acessando o acervo da Manchete (Xica da Silva, um sonho, por exemplo) ou voltar até as décadas de 80, 70 e 60, do que pensar em macular produções que ainda se sustentam sozinhas.

O universo da Pantanal de 1990 está resguardado, mas trazer essa história de volta significa tentar o equilíbrio que nem sempre a empresa conseguiu alcançar. Os recursos visuais deixaram de ser uma muleta e passaram a ser o que precisam: atmosfera. Os capítulos não dependem mais da brutalidade comercial de uma emissora mal das pernas e por isso, podem ser mais dinâmicos, mais planejados, sem “causos” de sobra e sem excesso de lúdico. A maneira indireta de tratar temas delicados passa a ser proposital. A feminilidade se defende, a masculinidade se questiona, o conflito geracional, regional, o anacronismo... Tudo na nova Pantanal foi calculado para respeitar o tempo, mas também para desafiá-lo. A imagem não escuda o texto, o texto não obstrui a imagem. Está tudo na dose certa de investimento e isso não acontece sempre assim. Mesmo que você seja público somente de séries de TV, já sabe que o problema por lá não é tão diferente.

O sucesso de Pantanal - que deveria ser um alívio para a teledramaturgia - acaba soando como uma ameaça.

Está definido...

... que a Filó de Dira Paes é uma das personagens mais queridas não só de Pantanal, mas das novelas como um todo. A aparente submissão não impede que a personagem tenha diálogos maravilhosos sobre afeto e aceitação; além de uma compreensão gradativa de seu lugar e do que ele representa. É uma pena que na história original a paternidade de Tadeu (José Loretto) seja questionada e isso coloque um ponto de dúvida sobre ela, muito mais para enobrecer o protagonista e em detrimento da trajetória. Ao mesmo tempo, nada é mais humano que descobrir o erro em meio ao paraíso.

... que alguns subplots da novela já funcionam com o "grande público" como há muito tempo não víamos acontecer. Por mais que a reputação de Juliano Cazarré no mundo real seja complicada por conta de seus posicionamentos, seu Alcides e a relação com Maria Bruaca (Isabel Teixeira) já fazem parte do imaginário da audiência. E mesmo que você não seja um entusiasta do mundo dos peões, com palha, cavalo e moda de viola, a transposição de tudo isso segundo o que os folhetins estabeleceram lá atrás, tem sido impecável.

... que é reconfortante ver de volta algumas expressões clássicas do mundo de Benedito Ruy Barbosa na sua fase pré-italianos. Frases como “bora mudar o rumo dessa prosa” e “o amigo tá querendo dizer o quê?”, são típicas desse universo. No fundo, José Leôncio, Bruno Mezenga (O Rei do Gado) e José Inocêncio (Renascer) são todos o mesmo personagem, com filhos sem coisas em comum com eles, filhos que têm coisas em comum com eles sendo renegados, impérios, uma esposa-troféu e a mesma melodia textual; óbvia, mas funcional.

Está a definir...

... o que pensamos sobre algumas escalações. A novela tem um grupo de personagens muito carismáticos, mas é um pouco difícil acreditar que Marcos Palmeira e Irandhir Santos podem ser pai e filho. A escalação de Jesuíta Barbosa como Jove não começou soando muito adequada, mas já alcançou aquele estágio em que estamos acostumados com ela. Novamente, o problema parece ser a discrepância etária entre ator e personagem. Jesuíta passa muito mais maturidade que o quase adolescente Jove exige. Por conta disso, as camisetas descoladas e o corte de cabelo parecem fora do tom e o personagem soa como o "Jovem" que Chico Anysio vivia lá em seus programas de humor.

...o que pensamos sobre a ambiguidade que é Juma Marruá. Alanis está fazendo um bom trabalho, mas é estranho que a personagem não saiba o que é uma lâmpada elétrica, mas seja mais bem cuidada que quem veio da cidade. A novela, na maioria das vezes, acerta ao não ignorar o que o mundo fora das porteiras tem a oferecer, indo pouco a pouco nessa direção. Porém, Juma e sua vida de tapera não são condizentes com a realidade. A gente voa, mas olhando para baixo.

Antes de suas estreia, Pantanal me deixou com muitas dúvidas e cheguei a apostar num flop. Depois do que passamos com a absurda Um Lugar Ao Sol, nada me conforta mais do que estar errado.

E aliás, quais remakes vocês gostariam de ver? Eu voto em novelas que sempre ouvi falar mas não tive idade para ver como Pai Heroi (1979) e Dancin' Days (1978), por exemplo. Ou mesmo novelas que jamais serão reprisadas e que poderiam ser refeitas para corrigir o que as levou ao limbo, como De Corpo e Alma (1992), uma boa novela que ficou marcada pela morte brutal de Daniella Perez. Um retorno homenageando a personagem Yasmin (que poderia ter outro nome para preservar como Daniella viveu-a) e dando à história um novo final seria bem interessante. 

Sobre a coluna Ovo Mexido 

Há muito tempo que a televisão não é mais a mesma, mas uma coisa sobre ela é irrefutável: ela persiste. O conceito de Omelete é quebrar ovos e transformá-los numa mistura homogênea que sirva ao consumidor com o gosto de familiaridade que ela tem. Um ovo mexido não é tão homogêneo assim, mas dentro de sua irregularidade, pode agradar pela proposta de novas texturas. Aqui na coluna o assunto será a TV em todas as suas épocas, formas e transições. E é isso que vamos servir para quem é apaixonado por entretenimento tanto quanto nós.

Todo mês, a coluna falará sobre tudo que diz respeito à televisão – da aberta ao streaming – com novelas, séries e realities; um espaço para “prazeres culpados" sem culpa nenhuma. 

*Henrique Haddefinir é colaborador do Omelete desde 2013, também é roteirista, dramaturgo, escritor e mestrando em teoria e crítica

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