Lovecraft Country vai de Nós a Faça a Coisa Certa em episódio desconcertante

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

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Lovecraft Country vai de Nós a Faça a Coisa Certa em episódio desconcertante

Pegada de horror slasher acelera as coisas neste começo de clímax da temporada

Marcelo Hessel
05.10.2020
11h58
Atualizada em
05.10.2020
12h08
Atualizada em 05.10.2020 às 12h08

De todos os eventos históricos citados em Lovecraft Country, e que frequentemente surgem com efeito paradidático para contextualizar o espectador, nenhum parece mais crucial do que o assassinato de Emmett Till. Em 1955, o negro de 14 anos foi preso em Money, Mississippi, acusado de ofender uma mulher branca, e terminou linchado e assassinado por dois policiais. Emmett saíra de Chicago e estava de viagem pelo Sul dos EUA; seu funeral foi testemunhado por milhares de pessoas na cidade natal e virou um dos estopins da batalha por direitos civis no país.

1955 é também o ano em que se passa a série, e desde o princípio o espectro do adolescente ronda Lovecraft Country, porque a viagem de Tic, Leti e George pelo “território racista” no episódio de estreia evoca silenciosamente o assassinato e poderia ter terminado da mesma maneira. Se a Guerra da Coreia parece ter um peso circunstancial sobre Tic, eventos como o homicídio de Emmett Till se acumulam para moldar a realidade dos personagens de forma mais definitiva.

Não por acaso, logo no começo deste oitavo episódio, Tic diz que o fato de sua jovem prima testemunhar o funeral é importante como um rito de passagem. Pois é justamente isso que “Jig-a-Bobo” faz com Diana “Dee” Freeman - a mulher escolhida da vez para ser a protagonista de seu próprio episódio - numa vertiginosa história de formação. O evento histórico não serve apenas de contexto e está intrinsecamente ligado à jornada de Dee, que era amiga de Emmett no universo ficcional da série e responde ao assassinato com a desorientação raivosa que se esperaria de uma adolescente que, agora, acumula três lutos na sequência depois da morte do pai e do desaparecimento da mãe.

Produtora principal da série, Misha Green assume pela primeira vez a cadeira de diretora, e conduz “Jig-a-Bobo” com a urgência que a circunstância pede, num exercício virtuose que casa a fotografia estilizada com escolhas arrojadas de trilha sonora, a começar com a entrada de “Cruel Summer”, uma canção de 1983 que logo de cara soa anacrônica em 1955. Hit do trio feminino inglês Bananarama, “Cruel Summer” fala das pressões sobre a adolescência no calor do verão e se popularizou na trilha de Karatê Kid em 1984. Em Lovecraft Country, a opressão do “verão cruel” ganha uma outra conotação, sem deixar de ser sobre as dores da juventude.

Se o caldeirão da tensão racial sob “o dia mais quente do ano” evoca o Spike Lee de Faça a Coisa Certa, o anacronismo da canção escolhida ajuda a traçar essa paralelo com os anos 1980 de modo mais imediato. Green mal deixa essa impressão assentar, porém, e já emenda outro salto no tempo, até 2019, em uma reminiscência de Nós, de Jordan Peele, quando associa Dee às pickaninnies de A Cabana do Pai Tomás, o romance de 1852 que sedimentou caricaturas raciais como essa das crianças negras mirradas porém joviais (que a palavra “pickaninny” seja uma variação de “pequenino” diz muito sobre a dominação portuguesa na história do tráfico de escravos africanos). A escrava Topsy do livro não vira exatamente uma doppelgänger de Dee no seriado (inclusive ela parece ser duplicada no episódio justamente para evitar essa interpretação de que é literalmente um duplo de Dee), mas é inevitável pensar em Nós, e em Peele, que afinal é um dos produtores de Lovecraft Country.

A impressão que fica, então, depois desses saltos vertiginosos que conectam 1852 a 1955 a 1983/89 a 2019, é que as questões de opressão da América negra se repetem ciclicamente como um pesadelo, do qual é impossível despertar. O formato de pesadelo slasher deste oitavo episódio reforça essa impressão: Dee não vai se livrar facilmente do feitiço de que foi alvo porque, afinal, é como se estivesse fadada a essa sina desde o nascimento. Sua vitória não é desfazer o feitiço mas sim se posicionar politicamente diante da proposta de negociar uma derrota. São um par de cenas muito fortes, uma fala catártica (“fuck you pig” também evoca 2019/2020), e pronto: com seu vestido de missa e seu boné de beisebol, Dee está no jeito para inspirar a fantasia oficial do Halloween deste ano.

De resto, o calor delirante que impõe a velocidade de marcha cinco (com jump cuts nas cenas de Dee e uma mudança sempre imprevisível entre os núcleos de Tic, Leti e Christina) ajuda demais a construir este início de clímax de Lovecraft Country, no seu antepenúltimo episódio. É como se “o dia mais quente do ano” forçasse à resolução todos os conflitos que se colocavam até aqui (Tic/Montrose, Tic/Christina, Ji-Ah/Leti, Leti/Ruby, Ruby/Christina) de forma mais ou menos autônoma. A confluência é vertiginosa e Misha Green pega o espectador no contrapé com visível prazer, ao brincar com convenções de scifi e fantasia, como na cena que menciona viagem no tempo de uma forma absurdamente desafetada.

No geral, é como se o seriado tivesse passado sete episódios testando formatos, discursos, para então juntá-los nessa apoteose que, acima de tudo, refina os formatos e os discursos. A misoginia que se percebia antes, por exemplo, é colocada em contexto e as cenas de violência contra a mulher são usadas como catalisador de algo e não apenas como válvula de sensacionalismo. Até o próprio fan service que se esperava acontece de forma orgânica, e não como muleta dramática, quando Tic cita as mudanças que foram feitas por Misha Green na adaptação do romance de Matt Ruff.

Para Dee, que termina sentindo o racismo literalmente na pele, o assassinato de Emmett Till é um evento fundador como foi o massacre de Tulsa em Watchmen. Com um oitavo episódio irrepreensível, Lovecraft Country também finca raízes, numa combinação que transcende história real, ficção e metalinguagem.

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